
Uma atitude que sempre tenho em mente ao analisar um
filme é pensar no programa de efeitos a que ele se propõe. E tem coisas que não adianta criticar, eles são feitos com outro fim e temos que esquecer até que é cinema.
E a vida continua é desses
filmes, que é difícil até apontar erros, pela baixa qualidade técnica em todos os aspectos. Mas, a sala estava cheia e provavelmente fará boas bilheterias pelo apelo
espiritual.
Realmente, a mensagem é boa, baseada no livro de
André Luiz, psicografado por
Chico Xavier,
E a vida continua foi um dos livros que mais me impactou. A história é forte, com desdobramentos bem desenvolvidos, ensinamentos e até um suspense interessante. Foi nesse livro que
Ivani Ribeiro se inspirou para escrever a telenovela
A Viagem, por exemplo, um dos maiores sucessos de nossa teledramaturgia. A trama de Evelina e Ernesto, que se encontram em um hospital espiritual e vêem suas vidas entrelaçadas em problemas familiares é boa.

O problema é que
Paulo Figueiredo, ao construir o roteiro do
filme, picotou a trama, fugindo de uma narrativa mais fluida na tentativa de colocar todos os discursos doutrinários da história. Fica complicado se identificar com os dois protagonistas, ou mesmo entender o seu processo de encarnados doentes, para desencarnados perdidos no hospital, até desencarnados trabalhadores de última hora. Os diálogos são didáticos e expositivos ao extremo e é difícil também compreender algumas nuanças dos
plots da trama. E se não tiver lido o livro, boa parte mesmo da trajetória se perde. O que fica mesmo são os longos monólogos de
Lima Duarte em um
chroma key amador.

Além do roteiro, no entanto, outros problemas técnicos saltam à tela como a direção insegura que nos conduz a planos armados dando a sensação de situação
fake, que prejudica até a atuação de atores experientes como
Ana Rosa e o próprio
Lima Duarte. Mas, eles ainda conseguem levar com uma certa fluidez, assim como
Ana Lúcia Torre. Mas, os demais atores são levados pela construção forçada, principalmente os protagonistas
Amanda Acosta (aquela mesmo do Trem da Alegria) e
Luiz Baccelli.
A montagem também é estranha, com muitos cortes bruscos,
fades demorados e pausas descontínuas. Mas, a precariedade técnica é vista mesmo nos
chroma keys constantes. Desde as cenas de Evelina e Lucinda (Ana Rosa), conversando ainda na Terra, passando pelos momentos na cidade
espiritual e a sequência no
umbral. Mas, nesse caso, podemos desculpar algumas soluções pela dificuldade de verba, não sendo o maior problema.

Um aspecto que incomoda de fato é a banda sonora. A começar, a trilha constante que não dá descanso aos ouvidos e acaba chamando mais atenção que a imagem. Raros são os momentos de pausa. Mas, isso nem chega a ser o pior. O problema é a ausência de som direto. O som ambiente não é construído, soando sempre algo deslocado, estranho. E os diálogos parecem mal mixados, dando a sensação nítida de uma dublagem mal feita.
Mas, para não apontar apenas pontos negativos, é preciso elogiar toda a sequência na casa de Ernesto, quando ele vai visitar a esposa em seu quarto. Há ali tensão, boa condução da curva dramática e boas interpretações. A questão
doutrinária cede espaço para a narrativa, sem precisar ser distorcida. Esse seria o caminho correto para os
filmes espíritas. A resolução também não é problemática, apesar da correria repetitiva em determinado local e a repetição da estratégia para que o público compreenda o que aconteceu. A cena final é bem feita, emociona até, e dá uma sensação de que A Vida realmente continua, apesar de todos os problemas que vimos em tela nesses longos 98 minutos. Com o perdão do trocadilho.
E a vida continua... (E a vida continua..., 2012 / Brasil)
Direção: Paulo Figueiredo
Roteiro: Paulo Figueiredo
Com: Amanda Acosta, Luiz Baccelli, Samantha Caracante, Luiz Carlos de Moraes, Lima Duarte, Ana Rosa
Duração: 98 min.