
"Não posso cantar amor, porque nunca tive", diz
Bezerra da Silva em determinado momento. Ele diz que precisa cantar músicas que denunciem a situação dos pobres, do
morro, dos
excluídos, isso é que lhe traz verdade. E foi essa verdade que o deixou rotulado como cantos de bandidos, como uma apologia ao que é errado. E é para desmistificar isso e mostrar o que está por traz dessa voz é que surge o documentário
Onde a Coruja Dorme.
Realizado pelas favelas cariocas e na Baixada Fluminense,
Simplício Neto e
Márcia Derraik vão buscar os
compositores das músicas que se tornaram famosas na voz do sambista carioca. Pessoas simples, porém muito atentas e inteligentes que se utilizam da
música para falar de sua própria realidade. Pessoas do povo, trabalhadores braçais em atividades diversas. Tem bombeiros, carteiros, técnicos de refrigeração, pedreiros, cobrador de ônibus, e claro, muitos trabalhadores informais, como camelôs. Mas, todos ligados pela possibilidade de estravasar através da
música.

É interessante a forma como
Bezerra da Silva se relaciona com todos eles. O
documentário mostra um pouco dessa rotina de busca por música e as diversas formas delas chegarem ao cantor. Por vezes, o
compositor é tão simples, que é semi-analfabeto e não tem noção de partitura, notas ou como registrar seu invento. Eles vão à casa de
Bezerra, cantam, ele grava em um gravador simples e decodifica a obra que poderá ser gravada por ele. Como ele mesmo diz, é de se admirar pessoas assim, mais do que aquele que estudou para isso.

Mas, o
documentário não se centra no cantor, e sim nesses
compositores quase anônimos, a estrutura é construída a partir de seus discursos. Assim,
Onde a Coruja Dorme vai discutindo também a própria situação daquelas pessoas. É interessante ver as letras das
músicas transpostas de alguma maneira para as falas diversas. Os temas como o malandro
vs o vagabundo, na visão deles. Ou o desprezo pelo
cagoete (dedo-duro), a relação com as drogas lícitas ou ilícitas, a questão do proibido e a dificuldade de viver de
música.
O jogo das editoras musicais que ficam com a maior parte do lucro é cruel e, visto pelo ângulo daqueles trabalhadores simples, é ainda mais complexo. Eles que vêem suas
canções ganharem mundo, tocarem nas rádios, ficarem na boca do povo, mas que continuam sendo tratados como artistas menores.
Músicos de baixa-renda como define o ECAD. E que estão sempre devendo às editoras que adiantaram algo para que eles editassem a
música ali.

A questão das drogas também é outro ponto interessante. Sempre presentes de forma subliminar ou não nas canções, principalmente a
maconha. O discurso é o mesmo do visto em várias rodas de intelectuais. O proibido gera interesse e como saber se é bom ou não, se não pode experimentar? Eles questionam também a questão das drogas lícitas, como um sujeito que bebe e fica violento, enquanto aquele que fuma um baseado não arruma confusão. E que a legalização da
maconha poderia, por exemplo, resolver o problema do tráfico e da violência.
A consciência deles do mundo em que vivem chama a atenção, derrubando de vez a visão do
compositor bandido cantado por
Bezerra da Silva, se é que alguém algum dia acreditou realmente nisso. Uma estratégia para diminuir aquele que não é interessante para os grandes grupos, mas que está sempre lá, com seu púbico fiel. São essas manifestações espontâneas que perduram. Não são criadas pela mídia, vão ao encontro dela, com sua verdade.
Onde a Coruja Dorme é, então, um
documentário instigante. Com uma construção simples, mas repleta da verdade que povoa as letras das
músicas que estão presentes em todo o
filme. Uma expressão bela, genuína e que só ganha o nosso respeito.
Onde a Coruja Dorme (Onde a Coruja Dorme, 2012 / Brasil)
Direção: Simplício Neto e Márcia Derraik
Roteiro: Simplício Neto e Márcia Derraik
Duração: 72 min.