
Trenchtown é uma favela na Jamaica, onde viveu Bob Marley. Favela da Maré fica no Rio de Janeiro, onde Herbert Viana viveu. Nem ele, nem João Barone ou Bi Ribeiro tem relação com a Favela dos Alagados em Salvador, é verdade. Mas, todas as três resumem mesma coisa. Pessoas pobres que vivem em palafitas se equilibrando entre a força da maré, esgoto e desilusão.
O refrão da música é mais do que uma bela poesia, é um resumo de um sentimento de desespero, descaso, falta de esperanças diante de uma situação tão adversa. A música que é literalmente interpretada em um dos momentos do documentário criado pela norte-americana Annie Eastman encaixa como uma luva no tema do filme.

O mote é a verba que o Ministério Público teria destinado para resolver o problema daquelas famílias. O desenvolvimento é o descaso com o passar dos anos. O documentário faz questão de pontuar cada passagem de ano. Nossa sensação é de que nada mudou, a não ser as crianças que vão crescendo aos nossos olhos. As imagens impressionam, chocam, chamam a atenção de quem vê. Crianças chorando com medo de atravessar com água quase no joelho. Senhora em meio a lixo e moscas em sua própria sala. Um mar de lixo empossando nos arredores.


A dor intensa é desenvolvida na tela de uma maneira muito sensível. Da Maré é daqueles filmes que precisa existir. Filme denúncia, mas sem discurso político desgastante. É a situação real e crua nos jogada na frente, nos deixando com uma sensação de impotência diante do visto. Aquelas pessoas se tornam próximas de nós por 74 minutos. E ao mesmo tempo estão em um mundo tão distante em que nem sonhamos imaginar. Um trabalho ímpar como cinema, como posicionamento político, como atitude social. Torço para que ele possa sair dos circuitos de festivais e chegar ao grande público.
Da Maré (Bay of All Saints, 2012 / EUA)
Direção: Annie Eastman
Roteiro: Annie Eastman
Duração: 74 min
Filme visto no Oitavo Panorama Internacional Coisa de Cinema. Salvador, 2012.