Sudoeste é um
filme inquietante que quer criar impacto. E já começa pela escolha da técnica.
Eduardo Nunes filma em uma janela incomum de proporção que deixa a tela ainda mais retangular que o widescreen comum. É também um
filme em preto e branco, com granulações aparentes e contrastes fortes. Mas, de uma beleza indescritível. E tudo isso em função de uma história mágica.
Explicar do que se trata
Sudoeste é explicar a
surpresa da descoberta. O
filme que começa com um mistério em uma casa. Uma moça grávida morrendo, uma mulher que toma conta e uma senhora misteriosa. A construção narrativa aparentemente linear que nos leva a uma cabana no meio do rio, logo começa a se revelar cíclica. E que traz muito mais
mistérios que explicações, na própria busca por si mesmo. Uma personagem em transformação e auto-descobrimento, com a ajuda do
místico.

Não por acaso, a personagem de
Léa Garcia é chamada pela vila de
bruxa. Talvez tudo aquilo que vemos seja obra dela, ou talvez estejamos em uma realidade subjetiva das lembranças, naqueles segundos pós-morte em que alguns creem podermos ter um vislumbre de toda a vida. Há diversas interpretações possíveis em uma história do impossível. Em uma
vila distante de pessoas simples que parecem não ter mesmo outro objetivo senão acordar, trabalhar e dormir.
Chama a atenção essa fábula do tempo e da vida, nos faz pensar, refletir e ligar todos os pontos apenas no final, é verdade, mas quando a luz se dá, algo de inquietante se apazigua e renasce dentro de nós com a força que a própria
vida e o seu sentido. Ou falta dele. Talvez, a
vida seja simplesmente aquela brincadeira das crianças, de fechar os olhos, ouvir a
chuva e imaginar como gostaria que tudo fosse. Não por acaso,
Eduardo Nunes nos faz experimentar isso, literalmente, ao desligar a luz da tela e nos deixar apenas com o som das gotas caindo, em uma experiência sensorial ímpar.

Aliás, a experiência sensorial é parte essencial da apreciação de
Sudoeste. Em sua tela estranha, em seus enquadramentos inventivos, em toda uma construção cênica especial. Na contemplação. O ritmo do
filme é desacelerado, até demais em alguns momentos, é verdade, mas tudo segue um fluxo de observação. Demora no olhar, na imagem quase estática, na construção cíclica do tempo. O
moinho é o seu maior símbolo e o plano em que vemos a casa do alto, com suas hélices passando em primeiro plano como se abrissem e fechassem aquela história.

Destaque também para as atuações, todas naturais e entregues aos seus personagens.
Dira Paes longe dos estereótipos da Globo compõe a sua Conceição com elegância e força.
Léa Garcia traz o mistério que sua personagem necessita. O casal composto por
Mariana Lima e
Julio Adrião trazem a carga necessária para o sofrimento pelo qual passam. Pelos segredos daquela família desfragmentada. E
Simone Spoladore brilha nos detalhes de sua Clarice, ainda que fique boa parte fora de cena, mas presente até mesmo na composição da pequena
Raquel Bonfante.
Sudoeste é uma experiência. Única, envolvente, desconcertante e que fica conosco em cada grão de sua película exposta. É um
filme que funciona para nos tirar do conforto da trama linear, explicada. Não que seja um
filme complexo ao extremo, é até didático se prestarmos atenção nas pistas que vão sendo colocadas. Mas, é acima de tudo uma
poesia. Uma fábula do tempo, da vida e seus significados.
Filme visto na
8ª Mostra de Cinema de Vitória da Conquista.
Sudoeste (Sudoeste, 2011 / Brasil)
Direção: Eduardo Nunes
Roteiro: Eduardo Nunes, Guilherme Sarmiento
Com: Simone Spoladore, Julio Adrião, Raquel Bonfante, Mariana Lima, Dira Paes, Victor Navega Motta, Everaldo Pontes e Léa Garcia
Duração: 128 min.