
Na verdade, a forma como começa é que é o gancho para nos prender junto a Henrique, um fotógrafo profissional que tenta sair de uma cena do crime, atordoado, catando o seu equipamento e gritando que é, na verdade, a vítima. O que aconteceu e quem forma cada peça dessa história vai nos sendo demonstrado aos poucos, em um suspense bem construído que nos envolve, nos deixa curiosos e nos surpreende em vários momentos.

É impressionante como todos esses questionamentos conseguem ser passados para nós e ao mesmo tempo, não tornar o filme uma tese sociológica. Disparos é extremamente cinematográfico, com um roteiro que instiga e faz pensar, sem deixar perder o fio condutor do entretenimento. A forma como Juliana Reis conta a sua história é envolvente; compramos a ideia da trama e nos deixamos embarcar nela.

Outro elemento positivo em Disparos é a construção dos personagens. Ainda que haja estereótipos como a noiva neurótica de Henrique, os homossexuais, ou mesmo os policiais, há um cuidado na construção de cada persona que os torna especiais. Aliás, os policiais vividos por Caco Ciocler e Thelmo Fernandes são um ponto alto do filme. Há sutilezas em críticas e ironias muito bem feitas. Desde o filme “Tropa de Elite 3”, que ele está assistindo no computador, passando pelas piadas por estudar para concurso, as divisões na madrugada, os casos que surgem. Até mesmo nos detalhes na parede com os cartazes de procurados que traz entre eles a foto do político Maluf.

Há ritmo em Disparos, um jogo orgânico dividido em capítulos que são como as fases de uma fotografia. O disparo, a exposição, a revelação e a ampliação. Com um tema recorrente como a violência, mas construída por uma óptica diferente, ele nos traz um frescor de novidade. Talvez por ser o toque feminino em um universo tão masculino. Mas, nem por isso, frágil.
Disparos (Disparos, 2012 / Brasil)
Direção: Juliana Reis
Roteiro: Juliana Reis
Com: Gustavo Machado, Caco Ciocler, Julio Adrião, Cristina Amadeo, Dedina Bernardelli e João Pedro Zappa
Duração: 78 min.