
Adaptar é sempre uma arte complexa. E para adaptar
O Hobbit,
Peter Jackson tinha um desafio ainda maior. O sucesso da trilogia
O Senhor dos Anéis acabou criando uma expectativa perigosa para uma aventura muito mais simples, de um livro infanto-juvenil, que acontecia 60 anos antes das ações dos
filmes anteriores. Diante do desafio,
Jackson transformou o pequeno
livro em outra
trilogia, pegou os apêndices do livro
O Senhor dos Anéis e usou também um pouco de imaginação própria. E pelo menos nesse primeiro
filme, conseguiu uma boa obra de
fantasia.
Como disse, um dos grandes desafios da adaptação de
O Hobbit foi trazer a história depois de o mundo conhecer os filmes
O Senhor dos Anéis. Os quatro roteiristas, incluindo o próprio
Peter Jackson e
Guillermo del Toro, que seria o diretor a princípio, tiveram que elevar o clima de tensão da obra, que era bastante pueril, uma simples aventura para enfrentar um
dragão. Com mudanças aqui e ali, inclusive de ordem de alguns acontecimentos, a
aventura dos
anões ficou mais densa, com direito a um arqui-inimigo caçando-os por toda a jornada e uma tensão ainda maior em relação aos
elfos.

A
Terra Média também não é apenas um mundo de
aventuras em paz como visto no livro, já há uma tensão crescente de um mal iminente. As florestas do leste já demonstram uma sombra, os animais estão morrendo e um
necromante assusta e cria lendas. Tudo bem, o negromante é citado no livro
O Hobbit, mas é um caso citado quase de forma despercebida para justificar a ausência de
Gandalf em boa parte da trama. Aqui, não, ele é quase uma trama paralela, com direito a reunião do
Conselho Branco em
Rivendell. E tem até uma construção interessante sobre o porquê do mago cinzento querer tanto ajudar os
anões a reaverem suas terras e
tesouro.
A ideia de elevar a tensão na
Terra Média, aproximando o
filme de
O Senhor dos Anéis é válida. A forma é que não ficou tão interessante, já que eles optaram por dar destaque ao mago
Radagast, o Castanho. O pobre mago interpretado por
Sylvester McCoy tem as cenas mais lamentáveis do
filme, com uma caracterização deplorável, com cocô de passarinho nos cabelos e um trenó de coelhos que gera sequências de correria atrapalhada, tem ainda uma cena longa onde tenta salvar a vida de um pequeno porco espinho, ou algo parecido. Sem falar que ele chega a tentar enfrentar o
necromante, o que é quase um absurdo.

Mas, apesar disso, o roteiro possui um ritmo bom de
aventura. Temos duas introduções, é verdade, mas a primeira nos dá uma ideia melhor do mundo dos
anões, tão negligenciados em
O Senhor dos Anéis, quando Gimli se transformou em alívio cômico da trama. Já a segunda introdução é quase saudosista para os fãs dos primeiros
filmes, onde podemos ver
Frodo, o portador do anel ainda jovem, ajudando nas preparações de uma festa na casa do tio
Bilbo, enquanto ele ainda escreve seu
livro. Espera-se que nos próximos filmes,
Peter Jackson justifique essa pequena cena criada com outros acontecimentos e ligações entre as histórias. De qualquer forma foi bom ver
Bilbo escrever a frase "em um buraco no chão, vivia um
hobbit".
Enquanto em
O Senhor dos Anéis,
Peter Jackson teve pressa de sair do Condado, nos dando a sensação de que Frodo, Sam, Merry e Pippin simplesmente embarcaram da noite pro dia. Em
O Hobbit ele nos deixa um bom tempo na toca. Não tem pressa de nos apresentar cada anão, o desespero de
Bilbo, o jantar atrapalhado, a explicação da missão, as músicas. Fica a sensação até de que a
aventura não vai começar nunca. Mas, é interessante nos ambientarmos um pouco mais com cada um deles antes de embarcar naquela insólita
viagem.

Outra mudança significativa que aproxima
O Hobbit de
O Senhor dos Anéis e justifica uma maior duração da história é em relação a batalhas. Não há muitas batalhas em
O Hobbit, e mesmo quando há são pouco descritas. É um
filme infanto-juvenil e os anões são sempre pegos com uma facilidade muito maior do que esperamos. No início eles nem estariam armados. Mas, o
filme reverte tudo isso, tornando-os o que eles são nas outras literaturas de
Tolkien, um povo bélico, e por isso, há muito mais lutas. Eles lutam contra os
trolls, eles lutam contra os
orcs, eles lutam contra os
wargs. Isso dá mais dinâmica à história e espicha a narrativa.

Agora, o grande momento de
O Hobbit para os que leram ou para os que viram
O Senhor dos Anéis, é mesmo o encontro de
Bilbo e
Gollum. Com uma computação gráfica ainda mais impressionante que nos primeiros filmes,
Andy Serkis dá vida à pequena criatura de forma fenomenal. O jogo de adivinhas que trava com
Bilbo no interior da caverna dos Orcs tem ritmo, emociona e diverte. E nos traz novamente, ele, o
Um Anel, que ali ainda não tinha a importância que sabemos que terá. Mas, algo no olhar de
Gandalf e na postura de
Bilbo ao sair da caverna nos dá a ideia de que
Peter Jackson não vai deixar ele ser apenas um anel mágico em sua nova trama. Ele só não pode esquecer que já vimos
Gandalf confirmando o que aquele objeto é em
A Sociedade do Anel, então, nada pode ser, de fato, descoberto aqui.
No final das contas, entre mudanças e temores,
O Hobbit é um bom
filme de
fantasia. Divertido, ágil, com boa apresentação de personagens e muita ação. Claro que não tem a densidade de
O Senhor dos Anéis, nem é para ter. Impecável novamente em imagens e tecnologias, pomposo em seus cenários e rico em detalhes descritos por
Tolkien, nos leva de volta à
Terra Média, em uma época em que ainda era possível sonhar e
Sauron parecia apenas uma sombra quase esquecida. Resta saber é como ele fará para contar o que falta em dois outros longos
filmes.
PS. Como a cabine de imprensa foi em 2D e 24 quadros por segundo. As tão esperadas tecnologias novas do
filme não puderam ser apreciadas ou comentadas. Então, aguardem novo texto para falar especificadamente delas.
O Hobbit: Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey, 2012 / EUA)
Direção: Peter Jackson
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Peter Jackson e Guillermo del Toro
Com: Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Elijah Wood, Cate Blanchett e Hugo Weaving
Duração: 169 min.