
Um
filme independente, mostrando um lado pobre dos Estados Unidos, com uma estética bem próxima do
neorealismo italiano. Se não bastasse tudo isso para chamar a atenção do
filme de
Benh Zeitlin,
Indomável Sonhadora tem a pequena
Quvenzhané Wallis, que apenas com nove anos é indicada ao
Oscar de Melhor Atriz.
Hushpuppy é uma menina órfã que vive com o
pai em um barraco com condições precárias. Sua alimentação é
pobre e come junto com os outros bichos, quase como eles. Desde muito cedo, Hushpuppy foi estimulada a animalizar-se, afinal esse mundo é mesmo dos fortes. E a pequena segue entre a dura
realidade e seus
sonhos fantasiosos, metáforas de bestas-javalis e uma mãe inexistente que lhe dá conselhos. Principalmente quando seu pai fica doente e uma
enchente complica a situação onde vivem.
Indomável Sonhadora não tem um roteiro extremamente criativo, nem mesmo uma direção que inove qualquer linguagem. Mas, é um
filme que toca por trazer uma poesia crua para a
pobreza. Uma
realidade que não se gosta de ver, que muitos preferem esconder, mas que se apresenta em cada canto escondido de qualquer país. É nisso que a fotografia é tão feliz ao nos mostrar os detalhes desse mundo de uma maneira bem delicada. A cena em que Hushpuppy está dentro de um caixote assustada com a tempestade, enquanto gotas caem do teto é muito boa.

Mas,
Benh Zeitlin não pretende fazer um filme denúncia, um tratado sobre a
pobreza ou algo parecido. Ele e a roteirista Lucy Alibar não aprofundam a questão. A doença do pai é quase um detalhe, a ignorância que é continuar vivendo naquelas condições subumanas se recusando a aceitar a ajuda dos voluntários por exemplo, não é desenvolvida. É apenas mais um ato dentro da trajetória daqueles personagens, como o é a
tempestade, a represa sendo derrubada ou o nascer e morrer de cada dia.
E em meio a tudo isso, a pequena
Quvenzhané Wallis realmente impressiona. A carga dramática pelo qual passa a sua personagem é defendida com muita força. O olhar de
tristeza da garota nos atinge profundamente. Sua capacidade de passar alegria, raiva e medo, modificando-as de uma maneira tão rápida, chama a atenção. Ela parece compreender tudo aquilo mais do que qualquer pessoa. Ainda que não tenha maturidade suficiente para entender.

Por outro lado, essa menina que vive nessas condições subumanas é capaz de
sonhar. E a imaginação da pequena invade a tela sem nos pedir licença, porém sem nunca perder o viés realista da trama. Isso não deixa de ser interessante, pois não temos aqui uma nova
Preciosa, mas uma garota em plena ebulição de emoções difusas que não consegue distinguir a realidade dura de sua fértil imaginação. Nisso,
Indomável Sonhadora, apesar do título
pobre em português, nos leva além e nos faz pensar em tudo aquilo.
Indomável Sonhadora é o primeiro longametragem de
Benh Zeitlin, que já começa chamando a atenção pela força do tema e das imagens que nos proporciona. Não é, no entanto, um
filme que encante as grandes massas. Tem um tempo próprio, uma estética própria e não faz questão de dialogar com outras escolas. Ainda assim, é envolvente e tem como grande destaque mesmo essa pequena grande
atriz que parece que, apesar de ter aprendido a se animalizar, é a mais humana de todas as personagens da trama.
Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild, 2012 / EUA)
Direção: Benh Zeitlin
Roteiro: Benh Zeitlin e Lucy Alibar
Com: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry e Levy Easterly
Duração: 93 min.