
De fato, se fosse um curta-metragem, poderia ser mais palatável. Porém, os oitenta minutos construídos por Petrus Cariry não deixa de ser uma viagem imagética e simbólica extremamente prazerosa aos que se deixaram fazer conexões. Sem isso, fica mesmo uma história estranha no fim do mundo. Ou melhor, na cidade fantasma de Cococi no vale do Inhamuns no Ceará. Quando uma filha retorna depois de anos distante para a casa onde a mãe vive sozinha, levando com ela um filho morto para a genitora abençoar e com isso, enterrar. Mas, a genitora não deixará que isso aconteça tão facilmente.

Mas, Petrus Cariry nos dá alguns indícios de que sua história não pode ser vista apenas com esses olhos práticos. O simbolismo permeia toda a trama, envolvendo religião, os conceitos de Deus, de Jesus Cristo e dos caminhos da humanidade. Um filho morto que a avó insiste em tratar como vivo. Essa mesma avó que vive em uma cidade fantasma, onde apenas ruínas a cercam e que, de certa maneira, assumiu o papel de tudo. Não por acaso, ela leva o neto Antonio até o que restou da igreja local e o batiza com os dizeres "pelo poder por mim investido". Essa mesma senhora, que se tornou a própria Igreja Católica, ao ser questionada pela filha se acredita em Deus, pergunta "Que Deus?". E em outro momento diz que não acredita que o marido "desencarnou".

Mãe e Filha seria, então, quase que uma jornada interna de valores arcaicos e necessidade de progresso. Da forma como, a cada passo que damos em evolução, nos afastássemos da religião e dos símbolos que nos ligam a Deus. Mas, não da verdadeira essência de Deus, e sim, do Deus apresentado por essa religião, um Deus que já está morto, tal qual Antonio Neto. A busca de Fátima a leva a um Deus interno que não a prende, e sim, liberta de pecados, culpas e sofrimento.

Com quase nenhum diálogo, poucas explicações e muitas possibilidades, Mãe e Filha é daqueles filmes feitos para quem embarca no universo simbólico e interpretativo. Não esperem uma trama padrão, com começo, meio e fim bem definidos que nos conduzem em sua narrativa sem precisar de muito esforço nosso para acompanhar. O filme de Petrus Cariry quer a nossa participação ativa, construindo, com os elementos que ele nos oferece, a nossa própria história.
Mãe e Filha (Mãe e Filha, 2011 / Brasil)
Direção: Petrus Cariry
Roteiro: Petrus Cariry, Rosemberg Cariry e Firmino Holanda
Com: Juliana Carvalho, Zezita Matos
Duração: 80 min.