
Violeta, interpretada por Alessandra Negrini é uma dentista, bem resolvida, casada, com um filho de catorze anos que tem uma rotina ativa. Acorda cedo, vai para o trabalho de bicicleta, malha no horário livre, cuida da casa, do filho. Mas, um dia, sem mais nem menos, recebe uma mensagem em seu celular. É seu marido dizendo que vai viajar e não volta, pois não a ama mais. Qualquer um enlouqueceria, é verdade. Até porque terminar uma relação de mais de catorze anos através de uma mensagem em celular, é cruel.

Djalma sai de cena e Alessandra Negrini toma conta do filme de Karim Aïnouz com o arrebatamento emocional que o texto pede. São reações irracionais em cadência, construídas em imagens que ajudam a compor o sentimento. Como a construção em que a personagem vai procurar uma pessoa que não fica claro quem seja. Podemos interpretar como uma amiga, mas pelas poucas palavras, ela parece mais íntima de Djalma que dela, ao dizer coisas como "ele esperou demais".

Violeta está tão confusa que chega a deixar o filho adolescente sozinho em casa dizendo que vai para Porto Alegre encontrar o marido. E acompanhamos sua jornada madrugada a dentro, enquanto espera o próximo voo que só sai às seis horas da manhã. Ela passeia de táxi sem rumo, toma banho em um motel, dança freneticamente em uma boate ao som de um dos hits de Flashdance com direito a repetição de passos e tudo, passeia por Copacabana e aí, sua sina começa a encontrar prumo.

Porém, a simbologia dela ali, acaba sendo um complemento essencial para aquilo, como já é costume nas obras do diretor. As possibilidades de futuro após aquela madrugada traumática. Nada está definido, nada é mesmo definitivo. Mas, Violeta está lá com uma vida pela frente, encarando a dor em sua jornada e seguindo em frente. Pouco importa a história linear, a narrativa. O que vale aqui é a experiência vivida. As sensações passadas. A construção do não-dito. Aquilo que só os olhos podem mesmo revelar, já que são eles a janela de nossa alma.
O Abismo Prateado (O Abismo Prateado, 2011 / Brasil)
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Beatriz Bracher
Com: Alessandra Negrini, Thiago Martins, Gabriela Pereira, Carla Ribas, Alice Borges, João Vitor da Silva, Rebecca Orenstein
Duração: 83 min.