
Quase vinte anos após a reabertura, o
cinema nacional vive uma fase bastante complexa. É fato que o
Brasil conseguiu um espaço maior nas salas de
cinema, basta olhar a programação e ver que a hegemonia norte-americana não é mais tão evidente. Como disse
Fábio Porchat na Coletiva que teve em Salvador, conseguimos ultrapassar a barreira do pseudo-gênero "filme brasileiro". Temos filmes de todos os tipos, gostos, estilos. E isso é muito bom, quantidade e variedade leva à
qualidade. O problema é que vemos uma certa acomodação das produtoras em relação ao que é "bilheteria certa".

Sim, estou falando das
comédias que invadiram o nosso
cinema nos últimos anos. Nada contra a
comédia, nada contra a fazer rir. Pelo contrário, sempre achei um gênero bastante injustiçado que vem da nossa herança judaico / cristã de que rir é pecado, fazer rir é uma arte inferior. Não por acaso, dizem que a Santa Inquisição deu fim no capítulo de Aristóteles sobre a
Comédia. O problema não é fazer
comédia, e sim a forma como se faz ela. Chaplin fazia rir, ainda que a crítica social e o cunho político estivessem em suas obras. As
chanchadas da Atlântida tinham seu viés ingênuo e popular. Mesmo algumas comédias da Globo Filmes, como os dois
Se Eu Fosse Você,
A Partilha, ou mesmo
De Pernas Pro Ar (o primeiro) e
Divã, tem qualidade. São produtos pensados, bem feitos, mesmo que não seja a chamada "comédia inteligente", há um apuro artístico em fazer rir de besteira. Que nos diga
Os Trapalhões que durante anos foi a luz no fim do túnel do
cinema nacional.

O problema começa com a vulgarização da arte, seja pela apelação do
sexo, escatologia, ou a simples repetição de estereótipos batidos e cansativos, que constroem o chamado "besteirol" e que tem se tornado comum em nosso
cinema, vide as recentes produções como
Giovanni Improtta,
O Concurso e o a ser lançado
Vendo ou Alugo, para ficar apenas nos
filmes deste ano. Parece que trazem com eles uma inércia de não pensar novas histórias, apenas repetindo clichês e fórmulas, que colocaram na cabeça que é o dá certo. Mas, será mesmo que só
comédia atrai o público?
Não há como negar que dão bilheteria. As pessoas gostam de ir ao
cinema para rir. Mas, elas foram também para chorar com
Meu Pé de Laranja Lima ou
À Beira do Caminho. Foram para sentir a nostalgia dos anos 80 com
Somos Tão Jovens e
Faroeste Caboclo. Adoraram ser surpreendidos com um filme de ação e efeitos especiais como
2 Coelhos. Se pararmos para analisar, a maior bilheteria do nosso cinema até 2010 era o filme
Dona Flor e Seus Dois Maridos. Um filme de 1976, que tem comédia, tem sexo, mas que o principal é ser uma obra de Jorge Amado. E ele só foi batido por
Tropa de Elite 2, que está longe de ser uma
comédia, ainda que muitos tenham rido com frases e situações do primeiro
filme.

O que estou tentando dizer é que nosso
cinema não precisa entrar em uma prisão do riso. Somos ainda uma indústria recente, se é que podemos chamar de indústria um mercado que depende de financiamento público. Ainda estamos na época de experimentar, arriscar, fazer em quantidade e variedade para encontrarmos a
qualidade. Não podemos nos acostumar a fazer o mesmo, como se apenas isso fosse garantia de público. Assim, vamos acabar como as telenovelas que parecem repetição da mesma história a cada autor que assume o horário. Ninguém se arrisca, com medo de fracasso, e assim, ninguém cresce. Vamos nos tornando
medíocres.

Já ouvi de diretores que gostariam de estar fazendo outro tipo de
filme, mas têm que fazer
comédias, porque é para o que os chamam e eles precisam pagar as contas. Diretor de
cinema no Brasil ainda sobrevive dessas duas escolhas. Ou faz
comédia ou faz
propaganda. Não dá para ser autoral, por exemplo, e viver disso. Mas, é apenas quando se arriscam que conseguem um prestígio internacional e algo mais promissor. Se
Fernando Meirelles não tivesse apostado o faturamento de sua produtora em
Cidade de Deus, provavelmente não estaria nos Estados Unidos fazendo
filmes. Da mesma forma que se
Afonso Poyart não tivesse arriscado fazer um
filme tão diferente para os nossos padrões como
2 Coelhos, não teria recebido a proposta de compra do seu roteiro para uma adaptação americana, nem uma oportunidade de trabalho por lá. Ou ainda,
José Padilha, que se arriscou com
Tropa de Elite e agora dirige
Robocop.

Então, arriscar não é ruim. Como fazer
comédia também não o é. Repito, temos bons exemplos de
comédias brasileiras. O que cansa é essa preguiça de pensar, esse comodismo de fazer sempre o mesmo, porque isso já deu certo. Cansa encontrar nos
cinemas, filmes que nos lembram o programa Zorra Total da Rede Globo. Principalmente, quando eles falham naquilo que deveria ser o seu propósito: fazer rir. Cansa abrir um arquivo para escrever mais uma
crítica falando mal de um
filme brasileiro pelos mesmos motivos do anterior. Porque isso dá a impressão de preconceito com o nosso
cinema, ou mesmo atestado de incompetência, quando temos tantos talentos espalhados pelo país.

O
cinema nacional é mais do que isso. Não precisamos nem mesmo buscar uma identidade única. Temos diversos tipos de
cinema espalhados pelo país. Temos uma ótima escola em Recife, temos Porto Alegre que parece ter dado uma pausa na boa safra, temos o eixo Rio-São Paulo com sua diversidade. Temos aqui na Bahia, no Ceará, em tantos e tantos lugares, talentos, ideias, boas histórias, que façam rir ou façam chorar. Não precisamos mesmo ficar repetindo velhas fórmulas. Torço para que o cenário possa ser modificado e continuemos a nos orgulhar a cada ano de nossas produções. Sejam elas
filmes de arte em festivais de prestígio, ou bons
blockbusters que divirtam plateias e arrecadem milhões.
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