
Uma casa, que na sinopse é apresentada como de luxo, mas nem tem tanto luxo assim. É daqueles
casarões antigos, imponentes em sua época, mas hoje com aspecto envelhecido. Para completar, fica na entrada de uma
favela do Rio de Janeiro. Dentro dela, moram quatro gerações de mulheres. Bisa, avó, mãe e filha, cada uma com suas características, mas todas falidas. Tentam vender a sete anos esta
casa e com a pacificação das
favelas vem a oportunidade. O problema é que enquanto elas recebem visitas de possíveis compradores, uma pequena guerra começa no morro. E a
confusão está armada. Assim é a trama de
Vendo ou Alugo, novo
filme da diretora
Betse De Paula que estreia nos
cinemas após receber doze prêmios no Cine PE deste ano.
Ser o grande vencedor não quer dizer, no entanto, muita coisa em um
festival onde os principais concorrentes eram
Bonitinha, Mas Ordinária ou
Giovanni Improtta. E talvez o principal problema de
Vendo Ou Alugo esteja na quantidade de roteiristas que assinam a obra. Cinco pessoas opinando e mexendo em uma trama pode dar muito errado. Vira quase uma colcha de retalhos tentando abarcar muitos personagens e situações. Tanta
confusão dentro de uma casa acaba criando alguns momentos interessantes e outros absurdos que beiram o
pastelão nonsense com direito a uma referência a
Kubrick que não faz o menor sentido de ser, principalmente para o público não-cinéfilo mais jovem, que não vai fazer "contato". Mas, devo admitir que eu ri de nervoso diante de uma cena tão
ridícula.

Porque no final,
Vendo ou Alugo acaba sendo isso, um filme bobo, mas inofensivo, ao contrário de
Giovanni Improtta, por exemplo, que é um filme chato e pedante.
Betse De Paula, que retorna aos longa-metragens depois oito anos, consegue trabalhar os estereótipos e clichês da
comédia sem se tornar tão repetitiva e apelativa. Ainda que tenhamos cenas de
Marieta Severo e
Marcos Palmeira dançando funk de maneira "sensual" ou mesmo fumando
maconha a todo momento. O
filme não procura também entrar em juízo de valor, nem na prisão do politicamente correto atual, ao misturar jogo de azar, pequenas trambicagens, drogas, etc, nem a necessidade de "recuperação" dos pecadores.
Aliás, o
filme não se furta a
piadas com nenhum tipo de assunto ou religião. Vide que a trama já começa com a personagem de
Marieta Severo "contratando" os serviços de uma daqueles "ajudantes do além" para vender a casa. O serviço se completa com uma oferenda a
Iemanjá em plena Praia de Copacabana. E assim que o barquinho entra no mar, surge a primeira luz para o fim dos problemas da personagem. Isso sem falar na própria figura da personagem que é, no mínimo, exótica. Maria Alice é uma mulher que vive de tradução, e o principal cliente dela é o tráfico do morro que precisa traduzir os manuais das armas que consegue. Além disso, ela passa o dia fumando
maconha e deve dinheiro a "Deus e o mundo".

A sua mãe, Maria Eudóxia, vivida por
Nathália Timberg, é daquelas ex-ricas que não percebeu ainda a nova situação financeira e social. Viciada em jogos, marca uma partida com as amigas no mesmo horário em que os possíveis compradores e o tiroteio. Assim, o
filme ganha a participação de Carmem Verônica, Daisy Lúcidi e Ilka Soares, formando um time de senhoras descompensadas. Tem ainda a filha de Maria Alice, Baby, interpretada por
Silvia Buarque em uma repetição da vida real, já que faz a filha de
Marieta Severo. Baby é daquelas
hippies fora de época, ambientalista, que quer viver junto com a natureza e sem apegos capitalistas. O que não deixa de ser uma contradição, já que não quer
vender a casa a princípio. E a adolescente Madu, vivida por
Beatriz Morgana, que é filha de Baby, com um deputado corrupto que é apenas citado. E está preocupada que vai fazer 18 anos e perder a mesada se não passar no vestibular.

Além deles, temos
Marcos Palmeira como um
traficante que é amigo da empregada da casa, mas quer mesmo ficar com
Marieta Severo. O corretor atrapalhado, o gringo maluco que quer comprar a casa para fazer um hotel temático e o pastor caricato vivido por
André Mattos e o marginalzinho vivido por
Juan Paiva. Isso sem falar nos policiais que surgem na cena mais
nonsense do
filme que envolve a homenagem a Kubrick já citada e um bolo de maconha. Como pode-se perceber é muito personagem para pouco espaço. Mas,
Betse De Paula consegue até dosá-los bem, construindo o ritmo da cena de uma maneira que não nos deixa confusos, vamos nos ambientando a cada um deles. E a todos ao mesmo tempo.
E mesmo com grandes atores, que muitas vezes se despem de qualquer pudor ou vaidade em favor do personagem, o
filme não tem tanta graça. O texto não é bom. As piadas são construídas de uma maneira ruim, vide a piada da barata que vai sendo construída em diversas cenas e situações apenas para ser apresentada de uma maneira infame quando os
policiais chegam. Ou piadas bobas como a tradução que
Marieta Severo estava fazendo para uns judeus e que o corretor ortográfico transformou Goy em Gay. O
filme está repleto desse
humor bobo.
De qualquer maneira,
Vendo ou Alugo é um
filme que tenta fugir do padrão. Ainda que não consiga fugir completamente dos estereótipos utilizados. É um
filme bobo, com um elenco desperdiçado e momentos vergonhosos. Mas, que também demonstra uma preocupação e até mesmo um controle com o que está sendo feito por parte da diretora. Não é um ótimo exemplar do
cinema, mas também não é dos piores. O problema é a gente começar a se contentar com os menos piores diante de uma safra tão pouco criativa.
Vendo ou Alugo (Vendo ou Alugo, 2013 / Brasil)
Direção: Betse De Paula
Roteiro: Betse De Paula, Maria Lucia Dahl, Adriana Falcão, José Roberto Toreiro e Júlia de Abreu
Com: Marieta Severo, Marcos Palmeira, Nathália Timberg, Sílvia Buarque, Pedro Monteiro, Nizo Neto, André Mattos
Duração: 90 min.