
Os Pássaros é o filme onde Hitchcock flerta com o surreal, construindo simbologias diversas em interpretações que chegam até a uma possível crítica ao comunismo. E talvez essa seja a parte mais divertida do filme, não há uma explicação explícita para o ataque. Até porque pássaros não falam. Revolta pelos maus tratos? Resolveram tomar a ilha para si? O fato é que o tom apocalíptico pegou as plateias da época, criando um terror impactante que precisava superar o sucesso do inovador Psicose.

A forma como Hitchcock constrói o foco nos pássaros durante todo o filme é um dos pontos altos da obra. Desde o princípio, com a loja de pássaros. Na estrada, temos planos detalhes dos periquitos na gaiola acompanhando as curvas da estrada. Na cena da travessia de barco, quando Melanie é atacada pela primeira vez, vemos também a gaivota se aproximando, preparando o golpe. Mas, nenhuma cena é tão emblemática quanto a reunião de corvos na frente da escola. A cada corte e retorno para o plano de Melanie encostada na cerca, vamos vendo mais e mais corvos se reunindo.

O terror construído apenas com o som e o desespero dos personagens é o momento mais tenso da trama, provocando medo genuíno. Há o desespero do som que nos dá a ideia de uma quantidade imensa, há a iminência do ataque, há a falta de espaço de fuga. Tudo construído apenas com o som das asas, dos piados e do bico batendo nas portas. Essa tensão acaba sendo mais eficiente que o próprio ataque dos pássaros em outros momentos, que causa mais horror do que cria medo.

Os Pássaros é uma das obras mais emblemáticas de Hitchcock. Um terror surreal construído nos mínimos detalhes, com um elenco bem afinado, destaque para a sempre ótima Jessica Tandy, como a mãe de Mitch, e uma tensão crescente. Uma prova de que uma história boba pode ser muito bem conduzida nas mãos de um hábil diretor.
Os Pássaros (The Birds, 1963 / EUA)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: Evan Hunter
Com: Rod Taylor, Tippi Hedren, Suzanne Pleshette, Jessica Tandy, Veronica Cartwright
Duração: 119 min.