
Por mais que o cinema fosse uma obra coletiva, Chaplin era sua melhor equipe. Ator, diretor, roteirista e produtor de suas obras, sempre preferiu o cinema mudo, por acreditar ser uma arte mais completa, que seria vulgarizada pelo som. Tanto que, em Tempos Modernos, que tem inserções sonoras, ele faz uma sátira ao som na cena em que canta uma música sem sentido. Ainda assim, uma de suas obras mais conhecidas é falada: O Grande Ditador.
É difícil falar tudo que Charlie Chaplin fez ou mesmo o que representa. Talvez, seu maior legado seja mesmo o personagem Carlitos, conhecido como O Vagabundo. Aquele homem simples, até ingênuo, de chapéu-coco, fraque surrado, bengala, bigodinho e andar divertido que nos alegrou em tantas aventuras. Um personagem tão forte que passou a ser confundido com o próprio Chaplin.

O Oscar, aliás, foi outra briga de Chaplin. Ele só ganhou dois, ambos honorários. Este já citado e um em 1929 pelo conjunto da obra em O Circo. Boatos falam que teria utilizado este primeiro Oscar como peso para a porta não bater e, por isso, a Academia nunca teria reconhecido seu talento em filmes futuros.
Ainda que difícil escolha, aqui os cinco filmes que recomendo para relembrarmos o gênio, em ordem cronológica.

Um filme sensível sobre um vagabundo que encontra um recém-nascido jogado na rua e a forma como os dois vão se afeiçoando e se tornando uma família. Na verdade, o bebê havia sido deixado por sua mãe em um carro de luxo, com um pedido para que cuidassem da criança, já que ela não tinha condições. Porém, o carro é roubado, o bebê jogado fora e encontrado por Carlitos. O amor que surge entre os dois é tão forte que faz Carlitos andar pelos telhados da cidade, pular em uma carroça em movimento e bater em um oficial de justiça que estava levando o menino embora, para nos presentear com um dos abraços mais emocionantes que já vi. O final do filme também emociona, principalmente porque Chaplin nos engana por duas vezes sobre o que seria a resolução daquela história.

Considerado pelo próprio Chaplin como seu melhor filme, Em Busca do Ouro fala exatamente da corrida pela pedra na conhecida "febre do ouro" de 1898. Carlitos vai em busca de uma mina, quando acaba preso em uma cabana por causa da quantidade de gelo. Aos poucos, a comida acaba e a solução encontrada pelo vagabundo é cozinhar sua própria bota. Tempos depois, Carlitos vive na cidade que foi formada no local e conhece Georgia, por quem se encanta e a relação dos dois ainda terá muitas idas e vindas. É neste filme também que tem aquela famosa cena de Carlitos brincando com dois pães em garfos como se fossem pés dançando.

Um filme extremamente sensível que traz um grande exemplo de como a falta de som não é impecilho para se passar uma mensagem. A trama gira em torno da paixão de Carlitos por uma florista cega. A moça deveria confundir o vagabundo com um homem rico, mas como fazer isso? Chaplin construiu a cena em que um carro se aproxima da moça, uma pessoa salta e o vagabundo se aproxima, fazendo com que ela pensasse que foi ele quem saiu do carro. A trama se desenrola com Carlitos tentando se passar por este milionário, ao mesmo tempo em que se torna amigo de um, mas que só o reconhece quando está bêbado. A cena final também é traz uma emoção ímpar, em um misto de alegria, tristeza e quebra de preconceitos.

Talvez o filme mais indicado por professores, aqui Chaplin nos mostra a evolução da tecnologia, a substituição do homem pela máquina, o stress da vida moderna e ainda de quebra nos dá uma crítica a manifestações e forma como a polícia lida com isso. A cena inicial comparando as pessoas saindo da fábrica a ovelhas pastando já nos mostra o que ele quer passar. Ainda mais com uma ovelha negra no meio, ou seja, Carlitos. Ele é operário de uma fábrica que tem uma crise nervosa (aquela famosa cena dele entrando na máquina). A partir daí, ele não vai mais querer trabalhar. Primeiro fica na clínica, depois é preso por ser confundido com um líder revolucionário e vai ficar tentando encontrar uma forma de retornar à prisão, onde tem teto e comida na hora. Tempos Modernos é isso, um manifesto, uma crítica, uma tentativa de resistência. Destaque ainda para a cena já citada da dança com uma letra inventada.

O primeiro filme totalmente falado de Charlie Chaplin. Uma crítica direcionada a Adolf Hitler e a Alemanha Nazista. Chaplin interpreta o grande ditador da Tomânia, Adenoid Hynkel, e também um barbeiro judeu. Os dois acabam sendo confundidos e o barbeiro assume o governo da Tomânia, dando uma possibilidade única de mudança da história. Diversas cenas são marcantes no filme, como aquela em que o ditador brinca com um mundo e, principalmente, o discurso final, que demonstra bem aquilo que Chaplin queria dizer ao mundo e a Hitler.