
A cena que trago para análise hoje é o final do filme. Não precisa avisar que tem SPOILER aqui, né? O filme é incrível em todos os aspectos, no entanto, essa é uma das soluções mais geniais para uma história com final inevitavelmente trágico. Não deixa de ser uma reviravolta, e uma saída bastante plausível e satisfatória para dar a Norma Desmond um final digno diante de sua loucura e desespero.
Norma era a estrela do cinema mudo, que estava sofrendo em seu esquecimento. "Não fui eu quem diminuiu, foram os filmes que ficaram menores", rebatia ela. Em seu sonho de voltar às telas, ela prende o roteirista endividado, Joe Gillis em sua mansão, se apaixona por ele, sente-se traída e o mata na piscina. Seria presa, não resta dúvidas. Mas, seu fiel mordomo Max von Mayerling não vai deixar a musa sair de cena de forma tão deprimente.

Começa com ela sendo escoltada do quarto, ela está em primeiro plano com um olhar perdido, a câmera faz uma panorâmica e vemos a multidão de fotógrafos tentando uma declaração. Neste momento, Norma fica pequena, no meio da confusão, até que ouvimos a voz de Max mandando todos fazerem silêncio. A câmera mostra Max e um assistente de câmera posicionando a filmadora na direção de Norma.
A câmera volta a mostrar Norma, ainda no meio dos policiais e fotógrafos. Apesar do plano já estar sendo construído, ela ainda não está composta na cena, ainda é a mulher louca que será presa. Volta novamente para Max que pergunta: "Você está pronta, Norma?" Neste ponto, a câmera já não volta pegando-a de costas no meio dos policiais, mas mostra o ponto de vista de Max, em um quase contra-plongée, deixando Norma maior, ainda que os demais continuem ao seu redor, focados.

Vários elementos ajudam na construção do impacto desta cena. Todos parados, quase estátuas, enquanto Norma desfila. A luz que cria uma sombra dura na parede, ampliando não apenas Norma, mas os próprios policiais, lembrando a nós, espectadores que a ameaça ainda é forte. E a música pomposa que lembra mesmo os tons da época retratada. E por fim, a narração de Joe Gillis reforçando que finalmente as câmeras se viraram para Norma Desmond.

E é sensacional que o close vai sendo desfocado aos poucos. Ao mesmo tempo que Norma se aproxima de nós, ela vai sumindo, como uma imagem etérea que se desfaz no espaço e no tempo. Esses seres incríveis que já estiveram no topo do mundo e que caem no esquecimento de uma maneira tão cruel. O título em português do filme é bastante feliz ao explicitar este crepúsculo dos deuses. Ainda que Sunset Boulevard carregue o significado do que a rua representa para Hollywood, e seja, claro, o local onde Norma mantém sua mansão. De qualquer maneira, esta cena é a simbologia maior de tudo isso.