
A História é sábia, ela só se debruça sobre os fatos anos após seus acontecimentos, para poder compreender melhor o que aquilo significa. Mas, o nosso mundo globalizado e a necessidade de denúncia torna alguns fatos urgentes. Assim é a história recente do Egito que, na verdade, ainda está em processo de reconstrução. Em 2011, quando o povo invadiu a praça Tahrir e depôs o ditador Hosni Mubarak, nada estava definido. O exército manteve-se no poder até as eleições quando o islamita Mohammed Mursi ganhou, gerando ainda mais insatisfação nos revolucionários, também caindo. E agora, eles continuam lutando para construir a verdadeira democracia no país.

A revolução do Egito foi marcada pela forte presença das redes sociais. Enquanto a mídia tradicional e o governo tentavam mascarar as notícias, lá era possível mostrar a verdade de perto. Algo parecido com o que aconteceu nas manifestações do Brasil ano passado, em proporções menores, é claro. É a voz do povo que não se cala e não é manipulada e que foi transposta para o documentário, mantendo a mesma linguagem de tela. Temos, inclusive cena da tela do computador, vídeos no Youtube, diversas mídias gravando e compartilhando imagens.

As etapas desenvolvidas no filme são bastante claras e diretas. O país ainda sob o regime de Hosni Mubarak até a sua queda são o primeiro ato. Entendemos melhor a realidade ali presente, a movimentação que levou as pessoas para as ruas, as manifestações, a renúncia. A cena em que a praça Tahrir comemora a saída do ditador é a mais emocionante do filme. Não apenas pela felicidade estampada em seus rostos, mas pelas incógnitas de futuro.

O filme é bastante franco e não poupa nenhuma questão, expondo torturas, discussões ideológicas contrárias e até cenas de violência extrema como o grupo de cristãos sendo atropelados por tanques do exército que impediam sua entrada na televisão estatal. Tudo isso recheado de depoimentos de todos os lados, inclusive de integrantes do exército que buscam justificar atitudes e negar fatos que estão expostos em imagens e vídeos.
The Square ainda não é o documentário definitivo sobre a revolução, até por sua construção recente. É preciso muita caminhada. Não se muda um país, não se institui uma democracia, nem é possível ver frutos sociais em apenas três anos. O Egito ainda tem um bom caminho a percorrer junto com seus revolucionários. Mas, a capacidade de expor a questão de dentro do movimento torna o filme um marco importante para toda a humanidade.
The Square (2013, Egito)
Direção: Jehane Noujaim
Roteiro: Jehane Noujaim
Duração: 108 min.