
Em um lago, no verão francês, homens homossexuais passam o dia sob o sol, nadando, caçando e tendo relações sexuais no bosque que os cercam. Uma rotina sem culpas, preconceitos ou pudores. A maioria nu. Entre eles está Franck, jovem assíduo frequentador pela forma despojada com que chega, falando com algumas pessoas e construindo também a sua rotina e que terá sua vida mudada por dois outros frequentadores. O tímido Henri, de quem se aproxima como amigo, e o belo Michel, por quem se apaixona.

Através da observação de Henri vamos também perceber a chegada de Michel. Bonito, queimado do sol, musculoso, excelente nadador, que logo chama a atenção de Franck. A forma como Henri observa tudo e diz frases soltas que nos alertam, vai construindo esse clima de estranhamento. Porque a Franck tudo parece natural, tão natural que ele não é capaz de se proteger. Vide a cena de sexo com o homem "medroso" que pergunta se ele não tem camisinha e se vai com qualquer um sem ela.

E a reviravolta que vem com o que Franck vê à noite no lago e mais do que isso, o que passa a sentir a medida que as investigações se intensificam vai demonstrando que o perigo está além de sexo, escolhas ou preconceitos. O ser humano pode ser perigoso e é preciso conhecer melhor as pessoas. O jogo que se faz, o perigo que Michel representa, a vulnerabilidade de Franck e a necessidade de Henri de protegê-lo são o ponto alto do filme que nos leva a diversas sensações.

Neste jogo de pudor despudorado, há também o jogo com os próprios personagens. Henri é o único que não fica completamente nu, sempre com seu short branco. Em seu oposto está Michel, que vai nu até para o bosque, quando todos os outros se vestem para se despir apenas atrás da moita. Já Franck, em sua primeira aparição, chega vestido e é o único que vemos ir para o lago de sunga. Apenas após a primeira nadada ele pede licença a Henri perguntando se este se importa dele ficar nu. Lembrando que Henri é uma metáfora da plateia, não deixa de ser significativo.
De qualquer maneira, Um Estranho no Lago é um filme interessante, que nos instiga em muitos momentos e nos deixa em suspense com uma provocante cena final. Poderia ter trabalhado melhor sua narrativa, atingindo diversos públicos e se esforçando menos para fazer o nu parecer natural. Ainda assim, é um bom filme, com diversas camadas e muitos desdobramentos.
Um Estranho no Lago (L'inconnu du lac, 2013 / França)
Direção: Alain Guiraudie
Roteiro: Alain Guiraudie
Com: Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick d'Assumçao
Duração: 100 min.