
Primeiro é preciso compreender que este é apenas o quarto filme da longa filmografia de Woody Allen. Ele ainda estava descobrindo o seu próprio estilo, vindo do teatro. Só cinco anos depois ele lançaria o seu primeiro grande sucesso: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa. E desde, então, vem aprimorando o seu humor ferino e suas cutucadas na sociedade. Sendo um diretor que tem a invejável marca de um filme por ano, é claro que nem tudo pode ser considerado uma obra-prima.

No primeiro capítulo, "Os Afrodisíacos Funcionam?", Woody Allen é um bobo da corte que não é engraçado. Melancólico até, quer que um feiticeiro o ajude a conquistar a rainha, porque o fantasma do seu pai lhe disse que só assim teria paz. Ou seja, ele brinca com tudo, até com Shakespeare e uma de suas peças mais famosas, Hamlet. Há aqueles que dizem que o fato dele ser um bobo da corte sem graça, faça referência também aos seus tempos de stand up comedy. De Woody Allen podemos esperar tudo, então, é possível. De qualquer maneira, não é dos capítulos mais inspirados.

Depois temos o capítulo "Por que Algumas Mulheres Têm Problemas com o Orgasmo?", que funciona mais pela parceria de Louise Lasser com Woody Allen formando um casal atípico. Ela só consegue prazer quando o sexo é associado a perigo. Os dois seguem, então, nas mais esdrúxulas situações. Funciona como piada inicial, mas logo cansa.
"Os Travestis São Homossexuais?", quarto capítulo, é bastante ágil. Também sem Woody Allen, traz duas famílias reunidas em um almoço, mas o pai de uma dela, interpretado por Lou Jacobi, tem o fetiche de se vestir de mulher. Tem alguns exageros na parte final, mas a dinâmica familiar é bem construída.

Em "Os Experimentos e as Pesquisas Sobre Sexo Feitas pelos Cientistas Médicos São Válidos?", sexto capítulo, Woody Allen volta como personagem, naquela que é a história mais surreal de todas. Ele é um aprendiz de um médico que encontra uma repórter no caminho da casa do novo mestre. Lá, os dois vão se assustar com as inúmeras experiências do cientista. De médico e louco todos nós temos um pouco? Talvez. A inutilidade das pesquisas mostra um certo desprezo de Allen por tudo aquilo que estamos vendo, como se dissesse que sexo não precisa ser estudado, apenas praticado.
E para fechar com chave-de-ouro sua tese, ainda nos dá um seio enorme andando pelas ruas como um bicho-papão soltando leite. Várias simbologias podemos tirar daí, desde o Complexo de Édipo, passando pelo fetiche masculino do seio e o primeiro alimento acabando por sufocar a todos.

Como disse, Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar não chega a ser um filme genial. Mas, traz nele as indicações do humor "Alleano" que ainda se desenvolveria muito através dos tempos. Deixa clara também outra característica de sua filmografia, onde o roteiro está sempre em lugar privilegiado em relação a direção de câmera. Não por acaso, seus maiores prêmios são como roteirista. Isso sem falar, na pontual interpretação de um personagem que também se repete, seja bobo da corte, marido preocupado, médico aprendiz ou mesmo espermatozoide. Sempre Woody Allen, com sua característica inconfundível que mistura melancolia com humor ácido.
P.S. Texto dedicado a meu tio Adilton, que vive lembrando e reclamando desse filme, apesar de ser fã do diretor.
Tudo o Que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo E Tinha Medo de Perguntar (Everything You Always Wanted to Know About Sex * But Were Afraid to Ask, 1972 / EUA)
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen
Com: Woody Allen, Gene Wilder, Louise Lasser, Burt Reynolds
Duração: 88 min.