
Não deixa de ser instigante ver um diretor como Aronofsky encabeçando um projeto como Noé. Sua filmografia sempre trouxe questionamentos do homem com o divino, a exemplo de Fonte da Vida e Pi. Mas, foi no homem e sua constituição psicológica que ele centrou seu maior interesse. É curioso, então, ver a forma como ele se apropria do personagem bíblico de quem pouco é exposto no texto sagrado, buscando conflitos e embates para além do dilúvio.

Partindo do pecado original e os filhos de Adão e Eva, vamos encontrar Noé como o último da linhagem de Set, enquanto os filhos de Caim dominam o mundo. O sonho de Noé, nos avisa da ira do Criador que pretende exterminar o homem e salvar os puros em um grande dilúvio. Mas, dentro do seio familiar, os conflitos internos nos mostram que o homem não precisa, necessariamente, ser extinto. Noé, no entanto, não partilha dessa ideia, crendo ser sua missão apenas salvar os animais e ver os homens serem exterminados aos poucos.

Ainda que pomposo, com uma dimensão grandiosa dos cenários, arca e dilúvio, Noé traz muito das sensações e marcas de Aronofsky. Até sua câmera posicionada atrás do personagem, que não chega a ser subjetiva, mas também não vê de fora, está lá, no momento chave do protagonista.
A estética traz elementos do psicodélico, principalmente nos sonhos e na narração da origem do mundo que Noé conta à sua família. Em muitos momentos, a câmera também nos da visões 360 girando em torno do cenário, construindo sensações diversas. Tudo isso, nos da muito de Aronofsky, além de construir uma linguagem mais dinâmica à história bíblica.

De qualquer maneira, Noé é um filme que impressiona. Não pela força de seu diretor, que já nos ofertou emoções muito mais autênticas e trabalhadas, nem pelo 3D que passa quase despercebido. Mas, pelo próprio formato épico, grandioso com um bom ritmo que nos remete ao passado ao mesmo tempo que atualiza a linguagem. No final, acaba sendo uma boa experiência fílmica.
Noé (Noah, 2014 / 2014)
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky, Ari Handel
Com: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Emma Watson, Logan Lerman, Anthony Hopkins, Nick Nolte, Frank Langella
Duração: 138 min.