
Não é natural que os pais enterrem seus filhos, tanto que não existe um nome para aqueles que o perdem. Um filho sem mãe ou pai, é
órfão, mas uma mãe sem filho, o que é? A
dor e o
vazio que ficam não tem remédio, nem o tempo. É com isso que lida o filme
O Sonho de Lu, do diretor mexicano
Hari Sama, que ganhou o prêmio de melhor atriz para
Úrsula Pruneda no Festival Internacional de Cinema de Xangai.
Lu, ou melhor, Lucia Alfaro, perdeu o seu
filho ainda pequeno por causa de um
aneurisma. O vazio que se tornou sua vida a levou a tentativa de suicídio e, agora, seus amigos e
familiares redobraram os cuidados com ela. Mas, a moça não parece querer reagir. Sua rotina, então, passa a ser frequentar um grupo de ajuda com pessoas que passaram por situações parecidas à dela e ficar em casa, tendo que conviver com a
mãe que não sai do seu lado e com as
lembranças em fotos e vídeos do seu pequeno.
Hari Sama faz um tratado delicado sobre esse
vazio que a perda nos deixa. A readaptação de uma rotina não tem pressa. É construída aos poucos, nos detalhes, nos olhares nos pequenos gestos. O que contrasta com a primeira reunião de pais que perderam os filhos. Tudo ali é
artificial, estranho, não há uma receptividade nos demais, como estamos acostumados a ver em
filmes americanos ou novelas da Globo. Tudo é muito frio e Lucia fala tudo de vez também. Com um depoimento, já sabemos o que aconteceu a Sebastian e, consequentemente, a ela. Isso poderia ter sido feito aos poucos, como em
Reencontrando a Felicidade, por exemplo.

Mas, não deixa de ter sua função, até porque todo o restante do
filme é de acompanhamento e suposição. Até uma revelação importante na parte final da trama não é verbalizada, apesar de ser clara, fechando um ciclo de pistas e recompensas que vem desde a primeira vez que Lucia assiste a um vídeo de
baleias na internet. Aliás, esse jogo de vídeos,
computador, fotos e uma certa caixinha é bem interessante. São detalhes que tornam a trama mais rica.
Um dos bons momentos que utiliza os elementos de cena é quando Lucia está discutindo com sua mãe. Ela não quer que a genitora permaneça ali, quer sua
privacidade, mas a senhora se preocupa com uma recaída da filha. Em meio à discussão das duas, uma música sobe como se fosse extra-diegética (colocada na pós-produção), porém, logo percebemos que ela faz parte da cena, pois as duas personagens param para ouvir. Era a uma
música que vinha do computador, a música que Lucia tocava para Sebastian dormir.

Lucia era uma
violonista famosa, com discos e espetáculos de sucesso. Esse detalhe traz outros elementos para a personagem, além de momentos emocionantes como o descrito. Toda a construção dela é bem realizada e a atriz
Úrsula Pruneda consegue nos passar todo o
sofrimento daquela mulher. Em uma cena de churrasco em família, por exemplo, nos sentimos sufocados e angustiados tal qual Lucia, quase pedindo, desesperadamente para sair dali.
O Sonho de Lu é um filme sensível sobre
dor e recomeço. Uma busca por um sentido da vida após um baque desestruturador que não é construído com mágicas ou falsas esperanças. É verdadeiro e por isso nos envolve e emociona.
O Sonho de Lu (El sueño de Lu, 2012 / México)
Diretor: Hari Sama
Roteiro: Hari Sama
Com: Úrsula Pruneda, Gerardo Trejoluna, María del Carmen Farias, Emilio Echevarría
Duração: 106 min.