
Renton, o protagonista vivido por Ewan McGregor, é também o narrador da trama que constrói uma trajetória cíclica bastante interessante. Ele começa falando das cobranças naturais da sociedade e das expectativas da vida de um jovem. Ele, porém, não parece querer nada disso, vivendo mergulhado nos efeitos da heroína, ou da tentativa de se livrar dela. Da mesma forma que seus melhores amigos, Sick Boy vivido por Jonny Lee Miller, Tommy vivido por Kevin McKidd, Spud vivido por Ewen Bremner e Begbie vivido por Robert Carlyle.

Ainda falando do roteiro, é preciso destacar os diálogos ágeis e inteligentes, principalmente as referências e discussões sobre cinema. Neste ponto, muitos comparam a Tarantino, o que não deixa de fazer sentido. As discussões de Renton e Sick Boy sobre 007, principalmente Sean Connery, são impagáveis. Tudo é construído em um tom acima, jocoso e divertido, por mais pesado que seja o tema, mesmo as imagens de uso da droga, alucinações proporcionadas ou mesmo o desespero dos efeitos colaterais.

O período de Renton em abstinência em seu quarto é outro exemplo onde angústia e construção estética nos dão sensações diversas, amenizando a dureza do real através de simbologias. Os efeitos do quarto, com a parede em movimento, a visão de Renton, as misturas diversas, constroem um quadro forte, mas ao mesmo tempo artístico, belo de se observar.
Trainspotting, que no Brasil ganhou o desnecessário subtítulo, Sem Limites, acaba sendo um dos filmes mais interessantes de Danny Boyle, se não for o primeiro. É um filme inventivo, solto, forte e, ao mesmo tempo, belo. Com ótimas atuações e um roteiro que se fecha de uma maneira muito inteligente. Ao final, temos a certeza de que o que parecia um amontoado de ideias, possuía um planejamento minucioso e passa a sua tese.
Trainspotting - Sem Limites - filme (Trainspotting, 1996 / EUA)
Direção: Danny Boyle
Roteiro: John Hodge
Com: Ewan McGregor, Ewen Bremner, Jonny Lee Miller, Robert Carlyle, Kevin McKidd
Duração: 94 min.