
Lembrei da cena da estreia do Brasil na Copa de 70 no filme O Ano em que meus pais saíram de férias, onde vemos um grupo de revolucionários se reunindo para o jogo com o discurso de que se a Tchecoslováquia vencesse seria uma vitória do comunismo. Eles até comemoram o primeiro gol do time adversário, mas quando o Brasil empata, todo o discurso político já some. No segundo gol, então, é só festa, e Cao Hamburger, de maneira muito inteligente, ainda coloca a música daquele ano, Pra Frente Brasil, para acompanhar a sequência.
Mas, o fato é que o futebol é uma paixão mundial, então não poderia estar de fora do cinema. Diversos filmes já foram feitos sobre o esporte, sobre jogadores ou tendo o tema como um dos panos de fundo de alguma história. Em 2012 fiz até uma seleção de filmes por craques, inspirada na estreia de Heleno. Mas, a variedade é mesmo imensa. Vocês podem encontrar diversos filmes aqui no CinePipocaCult com esta tag.
Resolvi trazer aqui, alguns destaques dentro do tema, pelos motivos mais diversos.

Direção: Tom Hooper
Aqueles que tem arrepios só de ouvir o nome Tom Hooper podem não gostar da escolha, mas acho que Maldito Futebol Clube é um dos poucos filmes de ficção que conseguiu passar a emoção do esporte, mesmo que não foque no jogo em si. A trama resgata a história de Brian Clough, o técnico mais polêmico da Inglaterra, que ficou conhecido por resgatar times considerados perdidos e levá-los à grandes competições. O filme mostra essa determinação e capacidade de superação acima de tudo, que encanta. A cena em que ele é expulso e fica ouvindo a partida no rádio do vestiário, por exemplo, nos dá uma emoção incrível. Muito mais do que se estivéssemos vendo o campo. Daqueles filmes que não podem ficar de fora de uma lista como essa.

Direção: José Araripe Jr.
O segundo filme que trago é, na verdade, um curta-metragem, mas acho interessante a forma como Araripe traduz a paixão do brasileiro na figura de seu protagonista. Gogó, um homem que vive para o futebol, sonhando em ser narrador de jogos e que consegue, de certa forma, narrar a final da Copa de 1994, quando o Brasil ganhou o Tetra Campeonato. Um detalhe divertido é em relação a uma santinha que Gogó guarda no fundo de sua casa, sempre rezando para ela e no final, há a revelação de o que ela seria. Caco Monteiro, que interpreta Gogó consegue nos passar bem o perfil do brasileiro torcedor símbolo. Um filme divertido e, como curiosidade, é a primeira aparição de Wagner Moura no cinema.

Direção: Ugo Giorgetti
E se é para falar de torcida brasileira e seus diversos tipos, nada melhor do que lembrar Boleiros, um filme que coloca a mesa de bar no centro da história, através de seis amigos que se reencontram para lembrar histórias de futebol. Quem não tem uma, não é mesmo? Faz parte da vida do brasileiro e o filme consegue nos dar um bom vislumbre de tudo isso. Com saudosismo, mas com crítica também, mostrando o bom e o mau do esporte de uma maneira muito criativa e bem conduzida. O longa teve uma continuação em 2006, retratando agora a situação da modernização do futebol, da realidade dos craques indo para Europa e a tietagem das meninas. Inferior ao original, o filme perde um pouco dessa simplicidade de falar de futebol e de "casos" do nosso país, tentando uma crítica que não se aprofunda nem diverte.

Direção: Emir Kusturica
Aqui não é exatamente um filme sobre futebol, mas sobre um mito. Maradona é quase uma entidade na Argentina e o que o filme de Emir Kusturica faz é tentar traduzir esse ídolo em um filme extremamente bem realizado. A linguagem é dinâmica com uma variedade boa de imagens que não respeita uma cronologia da vida do jogador, nem mesmo se incomoda em reforçar dados. O que ele quer é passar essa emoção e paixão do argentino pelo jogador e o quanto ele foi genial e importante para o seu país, inclusive no quesito político, já que fez o "gol do século" contra a Inglaterra. Um filme que vai além do futebol para nos mostrar aquilo que mais fascina nele, a força de um craque.

Direção: Murilo Salles
Vinte anos o Brasil esperou para erguer novamente a taça do mundo, e as lentes de Murilo Salles estavam lá, registrando com grande precisão a Copa do Mundo de 1994. Todos os Corações do Mundo, no entanto, não se força no Brasil e em sua vitória, mas na Copa em si. Na paixão mundial contrastando com o pouco interesse da torcida local no esporte, já que estávamos nos Estados Unidos. Só o nome Todos os Corações do Mundo já mostra isso, o coração e a paixão pelo esporte bretão, traduzido em imagens incríveis. E Murilo Salles é extremamente feliz ao não incluir narrações desnecessárias por toda a projeção. Um belo filme.

Direção: Márcio Cavalcante
Por fim, vou puxar a sardinha para a Bahia. E não apenas por ser baiana, mas é que realmente me impressiona o que Márcio Cavalcante conseguiu com esse filme. Ele traz a paixão pelo futebol e foca na paixão por um time, no caso, o Bahia. E é mesmo impressionante o que ele mostra em imagens. Vai do torcedor famoso ao anônimo, constrói esse mito que é a torcida do Bahia, que mesmo com o time na terceira divisão lotava estádios e tinha as melhores rendas do campeonato. O filme empolga e envolve, contagiando com sua energia e amor por esse time tricolor que anda tão sofrido.