
A trama poderia ser resumida como um garoto que vê seu pai abandonar a casa onde mora com a mãe, para tentar um emprego melhor na cidade grande. Inconformado com isso, ele tenta segui-lo e descobre um mundo belo e ao mesmo tempo assustador, com uma diversidade cultural e social imensa.
Mas, mais do que uma história linear, O Menino e O Mundo nos apresenta sensações. É uma jornada de descoberta que já começa na experimentação sensorial do menino no início do filme. A técnica de colocar o cenário vazio, apenas com ele e poucos objetos que aos poucos vão ganhando forma e cores já demonstra isso. E nessa visão infantil de descoberta, as leis da física não são tão importantes, podendo andar entre nuvens ou guardar sons em uma latinha.

Aos poucos, esta ingenuidade vai se desfazendo com o que vai presenciando na plantação de algodão, nas fábricas, no morro, ou mesmo nas estradas. Com o tempo até o seu pai se torna um rosto comum, incapaz de ser diferenciado de outros adultos. E tudo fica marcado em uma foto familiar que guarda em seu bolso.

A sutileza de colocar "rostos" nos meios de transporte e de construir os morros como castelos, também nos dão a dimensão exata desse mundo entre a realidade e a fantasia. Onde dor e esperança se misturam de uma maneira única. E a trilha sonora também ajuda a construir esse sentimento. Assim como a escolha acertada de não se comunicar por palavras. Os poucos diálogos do filme são em uma língua estranha.
O Menino e O Mundo é, talvez, a animação mais ousada já realizada no Brasil. Dialoga com as experimentações da linguagem, sem perder seu público de vista, nos brindando e fazendo viajar com uma jornada de crescimento como poucas. Em alguns aspectos me lembra Persepolis, filme francês de 2007. Uma verdadeira pérola que merece ser descoberta pelo público brasileiro.
O Menino e O Mundo (O Menino e O Mundo, 2013 / Brasil)
Direção: Alê Abreu
Roteiro: Alê Abreu
Duração: 80 min.