
Juvenal e Margô são dois solitários. Tão solitários que ela o convida para ser padrinho de seu casamento por não ter mais ninguém a chamar. E ele quase não aceita por não entender o sentido de tudo isso. Ele é condutor de trem do metrô, ela controladora de fluxo dos trens. Se encontram nos intervalos, e, aos poucos, ela vai se aproximando. Mas, nunca se estabelece de fato uma relação entre eles.

Ambos estão presos e o espectador se sente preso junto. Tão preso que, à medida que o filme vai se desenvolvendo, vamos nos acostumando com aquele pequeno espaço. E, assim, acabamos entendendo e experimentando um pouco da acomodação dos dois naquela espécie de vida sem cores ou sentido onde até o momento de lazer é regado com copos d´água. O líquido mais básico que apenas supre a necessidade de hidratação, sem gosto, sem tons. Uma vida sem sabor.


Ao mesmo tempo, ela parece tão carente de atenção, mendigando um amigo real. Seu convite de casamento exposto no mural e o resultado da festa. O noivo que se torna tão insignificante a ponto de não precisar de um ator para interpretá-lo. O pai que se comunica com ela de uma maneira tão simples. E esse novo quase amigo que ela compra como padrinho e se apega como tabua de salvação em um mundo inóspito.
O Homem das Multidões não é um filme simples. É incômodo. Busca nos tirar da zona de conforto, nos remexer na cadeira. Exagera em alguns pontos. Não funciona perfeitamente em outros. Mas, traz um retrato desse novo ser, que parece tão bem e estável nas redes sociais, mas esconde uma solidão profunda.
O Homem das Multidões (O Homem das Multidões, 2014 / Brasil)
Direção: Marcelo Gomes, Cao Guimarães
Roteiro: Marcelo Gomes, Cao Guimarães
Com: Paulo André, Sílvia Lourenço, Jean-Claude Bernardet
Duração: 95 min.