
Ontem terminou o
47º Festival de Cinema de Brasília consagrando
Branco Sai. Preto Fica como Melhor Filme. Vejam a lista completa dos premiados em nossa página no
Facebook e ainda esta semana farei um balanço geral dos curtas e longas, além de ir publicando aos poucos as críticas dos longa-metragens que guardei enquanto não eram divulgados os resultados, já que estava no júri da
Abraccine. Mas, antes, segue o resumo diário que vinha fazendo, contemplando os dois últimos dias da Mostra Competitiva.
Quinto dia:
Curtas:
B-Flat (SP, Mariana Youssef)
Luz (RJ, Gabriel Medeiros)
Longa:
Ventos de Agosto (PE, Gabriel Mascaro)

A quinta noite da
Mostra Competitiva de Brasília teve as sessões mais poéticas. Mas, é interessante como a linguagem documental parece permear mesmo os mais ficcionais dos
filmes.
O curta
Luz de
Gabriel Medeiros é um
documentário clássico, mostrando uma comunidade que ainda vive sem luz elétrica. Eles estão em uma área de preservação ambiental e a questão se torna mais complexa do que simplesmente levar luz a um local ermo.
Na coletiva, o diretor disse que não queria tratar do tema simplesmente pelo lado negativo de coitados, já que eles não tem
luz, mas de conhecer a vida dessas pessoas. Tornar-se próximos deles. Questionado sobre o porquê dos entrevistados serem todos mais velhos, ele explicou que os poucos jovens que ainda permanecem ali, já têm planos de estudar em outros locais, tendo alguma alternativa de
luz.

A luz, inclusive foi um ponto discutido em relação à produção. Filmado com uma
Red, a equipe quase não utilizou luz artificial, aproveitando apenas as luzes de vela, candeeiro e fogueira da própria comunidade. Tinham apenas uma Led, que usaram em poucos planos onde a câmera não conseguia captar o que os olhos nus viam.
Já o curta
B-Flat, foi bastante questionado em relação a temática, a escolha de filmar na Índia e até uma questão específica de um objeto de cena, a mala do protagonista, que segundo alguns dos presentes não combinava com um homem que mora em Nova York, mesmo que vindo da Índia.
A diretor defendeu sua escolha dizendo que fazia parte da proposta construir uma história sobre solidão em um pais tão populoso quanto a Índia. E que a paixão dos habitantes locais pelo
cinema ajudou a construir uma equipe de produção acessível.

Por fim, o longa-metragem
Ventos de Agosto de
Gabriel Mascaro trouxe discussões interessantes sobre o limite entre
ficção e
documentário. O
filme se apropria de muitas questões da comunidade onde foi gravado o
filme. Inclusive em uma cena específica em que os personagens encontram um crânio no mar e perguntam a um dos habitantes se ele conhece. A história contada não foi encerrada, foi o próprio morador quem disse ser de um antigo habitante local.
O diretor faltou ainda do personagem de captação de ventos que surge em determinado momento da trama e que seria uma representação de uma equipe de documentaristas chegando a um local qualquer. A forma invasiva que isso representa, e o próprio estranhamento é algo que ele queria discutir.
Sexto dia:
Curtas:
Estátua! (SP, Gabriela Amaral Almeida)
La Llamada (SP, Gustavo Vinagre)
Longa:
Ela Volta na Quinta (MG, André Novais)

A última noite do Festival trouxe dois curtas amigos. Os próprios diretores na apresentação inicial de demonstraram a felicidade de dividir a última noite da competitiva. Mas, a coincidência de escolas termina aí, já que são duas obras bem diferentes.
La Llamada de
Gustavo Vinagre é uma obra curiosa, uma encenação e um registro de um homem cubano que terá o seu telefone instalado pela primeira vez. Quase como o
cinema direto, a câmera pouco interfere na cena. Nos dando uma impressão de estar ali, observando sua rotina.

Já
Estátua! de
Gabriela Amaral Almeida é uma ficção que flerta com o suspense e o terror psicológico. Curioso que a platéia do Cine Brasília tenha rido tanto diante das cenas mais assustadoras. Talvez pela boa performance da garotinha
Cecília Toledo que cria uma curiosidade e estranhamento ímpar.
O longa-metragem
Ela Volta na Quinta talvez seja o resumo do que foi o Festival em sua junção de
ficção e
documentário. O diretor
André Novais coloca a própria família em cena para uma ficcionalização do real onde ficamos em dúvida até do que é real ou não.

Não deixa de ser curioso ver pai, mãe e filhos representando papéis em uma histórica ficcionada, mas que tem muito de real. “Eu prefiro trabalhar com pessoas que conheço muito e que eu sei que vão chegar onde eu quero. Eu fiz agora um curta, Quintal, que estreou na semana passada no Festival de Curtas de BH, em que coloco minha mãe voando, conversando com Aécio Neves. Estou na zona de conforto, mas estou tentando sair", explicou o diretor na coletiva de imprensa.