
No caso de Castanha, temos uma construção ainda mais intimista, já que o retratado ator João Carlos Castanha assina também o roteiro do filme. Sua vida e sua arte, então, se misturam na trama construindo um retrato de si mesmo com alegorias diversas e possibilidades imensas. Há um jogo eterno entre o dito e o não dito, o exposto e o representado.
Acompanhamos a rotina do ator em suas diversas facetas. O filho preocupado com sua mãe Celina e irritado com seu pai, a quem não visita e não gosta que a mãe visite. Os problemas com o sobrinho viciado em crack. Suas consultas a um pai de santo. Mas, principalmente, suas performances nos palcos gaúchos e na noite porto alegrense em bares GLS.

Este, talvez, seja o ponto fraco de Castanha. Em meio à performance, o filme acaba nos guiando em uma rotina que pouco diz ao público em geral. Temos ali uma crítica aos problemas da classe, levanta-se temas como preconceito, problemas familiares, dificuldades de lidar com drogas, até o sistema de saúde entra em cena em uma busca por tratamento. Mas, pouco é desenvolvido de fato.

Da mesma forma que é fascinante acompanhar o desnudamento de um artista, de um homem em cena. Sem pudores, sem censuras, sem julgamentos. Castanha se mostra intenso. Versátil no palco. Alegre na vida pública. Impaciente na vida particular. Seus momentos de pausas no camarim ou no quarto demonstram seu cansaço. Um cansaço talvez até de tanta encenação. É instigante, então, que sua maior encenação seja exatamente sua própria vida.
Vemos em tela um processo e um experimento. Conhecemos mais do artista do que se tivéssemos visto um documentário tradicional, ou uma cinebiografia ficcionalizada. Vemos o que ele é, o que ele quer ser e o que ele acredita ser. Tudo isso de maneira sutil, ainda que com recursos que enganam o público.
Visto no X Panorama Internacional Coisa de Cinema.
Castanha (2014, Brasil)
Direção: Davi Pretto
Roteiro: Davi Pretto
Com: João Carlos Castanha, Celina Castanha, Zé Adão Barbosa
Duração: 95 min.