Stephen Hawking é um dos mais consagrados
cientistas da atualidade. Duas coisas chamam a atenção nesta personalidade: suas
pesquisas, sobre o
tempo e o
Big Bang, e sua
doença degenerativa que, apesar de cruel, não o fez desistir, continuando seu trabalho pelo mundo.
O
filme A Teoria de Tudo, no entanto, coloca tudo isso em segundo plano para contar uma história de
amor. Nada contra histórias de amor, mas o fato da obra se basear no
livro de
Jane Hawking, que foi casada com ele durante 26 anos acabou deixando o olhar dos realizadores um tanto tendencioso.
O
filme é um
melodrama, com todos os ingredientes do gênero em excesso. Inclusive uma trilha sonora extremamente intrusiva que parece querer nos forçar a chorar em momentos diversos. A
dor dele é explorada, mas o foco acaba sendo mesmo a força e carga dela diante dessa situação. O roteiro não se furta a momentos de exaltação de sua pessoa, até quando um dos amigos o carrega para comemorar uma vitória na faculdade e comenta: "nossa, não sei como a Jane aguenta".

É verdade, não apenas o peso físico do marido, como toda a trajetória do
casal foi muito difícil. Não há como negar sua importância e sua força de estar ali ao lado de
Stephen. Jane sofreu tanto ou mais que ele com sua doença, com suas limitações e ainda abdicou de muitos dos seus sonhos. Não digo que o
filme precise negar isso, mas ao transportar o foco para a sua visão, mesmo quando ela não está em cena, construiu uma versão própria da história. Tanto que o recorte da trama é o tempo em que passaram juntos, enquanto que de 1995 para cá ele continuou tendo vitórias na
profissão e na
doença, já sem a companhia de sua esposa.

A sua trajetória acadêmica não chega a ser esquecida, mas nada é aprofundado sendo mostrado apenas em cenas superficiais como uma banca de
doutorado quase tola, apesar dos nomes ali presentes. E uma apresentação pública extremamente forçada com direito a rompantes da plateia que o taxam como "idiota" ou "gênio". Mesmo uma
palestra posterior nos mostra apenas o superficial de seu pensamento com uma cena desnecessária de
imaginação e uma plateia ovacionando. A própria questão da existência ou não de
Deus, que é um dos pontos polêmicos de sua obra, vai sendo conduzido quase como uma rixa de
casal, onde ele se diz ateu e ela é religiosa indo à igreja todos os sábados.
Mas,
A Teoria de Tudo não tem apenas maus momentos. A força do personagem traz cenas fortes e bem construídas como o momento em que ele é informado da gravidade de sua
doença e mostra um plano dele sozinho no corredor do hospital. Por mais que possa parecer mais um recurso forçado é uma excelente metáfora de seu sentimento de
solidão e abandono. A cena do
casal após ele falar sobre uma viagem para Nova York também é extremamente bem feita. A cena do baile também é bonita, assim como muitos momentos em família.

A atuação de
Eddie Redmayne é outro aspecto que merece todos os elogios. O ator consegue nos trazer a postura, expressão corporal e olhar de
Stephen Hawking com uma força impressionante. O desespero dele na mesa de jantar, por exemplo, por não conseguir segurar uma colher, ou a
dor que extravasa em um ridículo jogo de críquete. Ou mesmo o seu bom humor posterior mesmo quando usa uma máquina de voz para se comunicar. Esse é um elemento fundamental em sua personalidade, a superação das limitações continuando a manter sua vida útil e
Redmayne consegue passar de uma maneira natural, divertida e envolvente.
Outro ponto interessante do
filme é o seu final, que claro não conto aqui, mas traz um pouco da teoria do próprio
Stephen Hawking para nos deixar um último momento nostálgico sobre sua vida e sua relação com
Jane. No final,
A Teoria de Tudo não é um
filme ruim, mas utiliza de um personagem tão marcante com tantos pontos a serem tratados para nos contar uma história de
amor e
superação que poderiam estar em qualquer lugar.
A Teoria de Tudo (The Theory of Everything, 2014 / Reino Unido)
Direção: James Marsh
Roteiro: Anthony McCarten
Com: Eddie Redmayne, Felicity Jones, Tom Prior
Duração: 123 min.