
Se tem um diretor que consegue transitar pelos mais diversos gêneros de maneira brilhante é
Billy Wilder. Ele nos deu pérolas como
Crepúsculo dos Deuses,
Quanto Mais Quente Melhor,
Pacto de Sangue,
Testemunha de Acusação,
Sabrina, só para citar
filmes de variados gêneros.
Se Meu Apartamento Falasse é apenas mais um deles.
A trama é inusitada, mas traz situações e personagens cotidianos, sem glamour ou mesmo características que admiremos. Seu protagonista, Calvin Clifford Baxter é um funcionário de uma empresa de seguros em
Nova York. Covarde, atrapalhado e ambicioso, apesar de bem intencionado, ele começa a emprestar o seu
apartamento para os empresários do escritório e, assim, vai subindo na carreira. Mas, o que ele não contava era que a moça que ele cortejava era a amante de um deles.

São os pequenos detalhes que tornam
Se Meu Apartamento Falasse um clássico. A começar por seu elenco.
Jack Lemmon,
Shirley MacLaine e
Fred MacMurray receberam prêmios e indicações pelos papéis principais. Construir um homem como Baxter não é tarefa fácil e
Jack Lemmon consegue não torná-lo caricato e criamos empatia com ele, mesmo vendo tantas fraquezas. Da mesma forma que
Shirley MacLaine dá a Fran a dose certa da mulher sonhadora e correta, ainda que
amante de um homem casado que sempre a ilude com o divórcio iminente. Homem esse também construído no tom certo por
Fred MacMurray.
O mais interessante de Baxter e Fran é que eles não são construídos como vítimas, coitados, mesmo quando sofrem alguns golpes do destino. Sabemos de suas
fraquezas, torcemos para que tomem a atitude correta, nos irritamos quando eles não tem a coragem de dar um basta e vão se deixando levar pelas circunstâncias. Mas, ao mesmo tempo, os compreendemos e sabemos que apesar de tudo, eles estão bem. Ou pelo menos, devem ficar.

O roteiro escrito pelo próprio
Billy Wilder junto a
I.A.L. Diamond é extremamente bem planejado, construindo a trajetória de Baxter de maneira bastante sutil ao tocar em diversos pontos da sociedade da época, do mundo empresarial, da troca de favores, da relação entre
vizinhos e as relações familiares, com homens sempre traindo suas esposas. Há detalhes incríveis como a forma com que ele descobre que Fran é a
amante do chefe, pista implantada de maneira muito natural antes. Assim como toda a confusão construída no
prédio sobre os acontecimentos decorrentes do calmante.

A direção também é muito bem conduzida, com diversas cenas que chamam a atenção pelos detalhes. A apresentação dos personagens é muito boa, principalmente a primeira cena no
elevador. A composição de sua mesa no
escritório, com as diversas mesas enfileiradas de maneira geométrica, fazendo uma composição visual com o teto. Isso faz um efeito muito bom na cena de sua promoção, quando ele vai andando por aqueles corredores dando a dimensão da grandiosidade daquilo.
A cena em que tenta organizar o agendamento da semana no
apartamento também é muito boa. Com poucos planos e uma economia narrativa impressionante, ele consegue nos mostrar a quantidade de "clientes" que Baxter tem por sua agenda giratória. O perfil e escolhas dos homens, pela troca de telefonemas, as ameaças veladas e, claro, sua situação quase ridícula de estar gripado tendo que negociar para dormir à noite em sua própria casa.
Por tudo isso,
Se Meu Apartamento Falasse é um dos
clássicos do
cinema de todos os tempos. Não por acaso venceu em 1961 o Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original, Melhor Montagem e Melhor Fotografia em P&B. Daqueles que merecem sempre serem lembrados e revistos.
Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960 / EUA)
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder, I.A.L. Diamond
Com: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Fred MacMurray
Duração: 125 min.