
Intelectuais diriam, telenovela é o ópio do povo, alienação da Rede Globo, melodrama barato que só visa a emoção fácil com temas rocambolescos, personagens estereotipados e tramas que onde todos os personagens acabam se envolvendo, por mais improvável que isso seja. Superficialmente, é isso mesmo. Muito da programação de efeitos do gênero é para ser de fácil captação, popular e agradar a públicos mais diversos. Mas, é também uma análise rasa, preconceituosa diante de um produto que, bem ou mal, conquistou a maioria dos brasileiros e é exportado para o mundo inteiro.

O filme de Odilon Rocha possui dois polos bem definidos e distintos: a realidade da ditadura militar e a realidade das telenovelas com a moda da época, a disco. Para representar esses dois pontos, duas protagonistas bem estereotipadas: a prostituta de luxo Amanda, interpretada por Vanessa Giácomo, e a ex-militante disfarçada de empregada doméstica Dora, vivida por Claudia Ohana. Na vida delas, um vilão daqueles bem maus mesmo vivido por Alexandre Nero, um drama familiar que envolve ditadura, filho deixado com a avó, que ainda é gay e sofre bullying no colégio. E claro, a discoteca da Urca que inspirava a telenovela.

Diante de tantos estereótipos, fica difícil comprar o drama de Dora, sua relação com o militante Vicente vivido por Otto Jr. soa fake, a dor e emoção de estar com o filho vem em uma situação irreal demais, até mesmo o ódio dos policiais não parece tão crível e a culpa não é de Claudia Ohana, que se esforça para trazer emoção genuína diante de tudo aquilo. Enquanto que Vanessa Giácomo simplesmente se deixa levar por sua personagem transloucada.

Porque nada impede que ele discuta a paixão dos brasileiros por telenovelas pelo seu ponto de vista. Ele acha que é uma válvula de escape? Uma alienação principalmente em uma época em que o país vivia uma ditadura militar? Não tem problema, o problema é não desenvolver o tema nos apresentando uma obra superficial e tola. Um rascunho do que poderia ter sido. O próprio Gilberto Braga, autor da telenovela que ele usa de ponto de partida fez algo muito melhor na minissérie Anos Rebeldes onde militância e alienação estavam em pauta a todo momento.
É uma pena, mas A Novela das 8 é apenas isso, um rascunho do que poderia ter sido, mas que esbarrou no próprio preconceito do seu autor.
A Novela das 8 (A Novela das 8, 2011 / Brasil)
Direção: Odilon Rocha
Roteiro: Odilon Rocha
Com: Claudia Ohana, Vanessa Giácomo, Mateus Solano, Alexandre Nero
Duração: 105 min.