
No início do mês, Lula esteve em Salvador junto com o ator Lázaro Ramos para divulgar o filme e pudemos bater um papo com ele. Vejam como foi.
CinePipocaCult: O que te levou a fazer uma adaptação de um livro? O que te chamou a atenção nele?
Lula Buarque de Hollanda: O que me chamou a atenção foi a originalidade de ter um personagem que é vendedor de passados. Eu li o livro e pensei que você poderia ter um vendedor de passados em qualquer país. Então eu propus trazer esse personagem pro Rio de Janeiro, ele gostou da ideia, desapegou da história original. E a partir disso eu desenvolvi o filme.

LBH: (risos) É, a gente pode pensar assim. Ele vai colecionando coisas, criando. E o legal nesse roteiro que a gente pensou é aquela cliente, aquela mulher linda, que chega para o cara que está com vida emocional estável e encomenda pra ele um passado do zero. E ele se apaixona por aquela ideia, se apaixona por aquela mulher e vai fazer a obra-prima dele. Coloca o máximo dele ali. E é um pouco do que o cineasta faz. Se você não colocar o que você tem de bom, todo o seu coração ali, o filme não vai ficar bom.
CPC: E como foi a escolha de Lázaro Ramos e Alinne Moraes para os papéis principais?
LBH: O Lázaro foi a primeira escolha, desde o primeiro momento em que pensei em fazer o filme, já propus pra ele, que gostou. E foi muito legal porque ele participou do desenvolvimento do roteiro, dos ensaios e acabou entrando como produtor executivo, ajudando no lançamento. Aí, a partir desse núcleo, eu propus também para a Alinne que tinha feito outro filme na Conspiração (Filmes, produtora do filme de que ele é sócio-fundador) O Homem do Futuro. Cláudio adorou trabalhar com ela. E foi ótimo, ela entrou com tudo, foi super disponível, ensaiou pra caramba. Eu estou muito contente com o resultado de trabalho de atores.

LBH: Na verdade, são trabalhos distintos e complementares ao mesmo tempo. O cineasta quando está vivendo um universo, ele se aprofunda nesse universo. Quando fui fazer o Verger (Pierre Verger: Mensageiro entre dois mundos), mergulhei no mundo do Candomblé, quando fiz o samba (O mistério do samba), mergulhei no mundo da Portela. Mesma coisa com o Casseta & Planeta (A Taça do Mundo é Nossa), estudei muito as comédias. Com eles o meu objetivo era fazer uma coisa diferente do que faziam na televisão. Então, acho que o cineasta é isso. Se é documentário, se é ficção, pra mim não faz diferença. Na verdade, fazer ficção é um desafio, porque é muito complexo, talvez o documentário eu já dominasse melhor, tivesse feito mais, então, é mais fácil pra mim.
CPC: E como é o seu processo de direção, você decupa muito as cenas?
LBH: Decupei bastante, mas eu tenho uma liberdade na hora. Menos na parte de roteiro. Na hora de filmar, a gente já sabia bem o que ia fazer, era um ritmo de filmagem meio complicado, então não dava pra improvisar tanto. Mas, a parte de fotografia era mais livre, tive um grande parceiro que é o Toca Seabra, grande fotógrafo. Foi muito amigo, muito parceiro, a gente trabalhou muito a decupagem.

LBH: Na verdade, eu tenho referências. O cinema argentino é uma referência. Relatos Selvagens é maravilhoso, adoro Um Conto Chinês. Gosto de filme bom. Essa é a minha inspiração.
CPC: O cinema nacional mais popular hoje é dos filmes de comédia. O Vendedor de Passados vai por outro caminho. Como você vê esse cenário e qual a estratégia para levar o público aos cinemas para conferir o filme?
LBH: Aí a gente tem que contar com os parceiros. Eu tive a felicidade de contar com a Imagem como distribuidora, que cuidou do filme com o maior carinho, a gente pensou o lançamento. Você tem que ter um distribuidor que acredite no projeto. O cinema é uma indústria, não adianta só a Conspiração (produtora do filme de que ele é sócio-fundador). Tem que ter parceiros.
CPC: E o seu passado, você mudaria alguma coisa?
LBH: Dá para melhorar algumas coisas, né? (risos)