
Assassinado pelo próprio filho no início de 2014, o principal documentarista brasileiro teve sua despedida das telas finalizada pelo diretor João Moreira Salles com o apoio da montadora Jordana Berg. Provavelmente, não é o filme que veríamos se Coutinho estivesse vivo, ainda que durante as filmagens ele já fosse fazendo marcações e estivesse trabalhando no primeiro corte quando nos deixou. Ele próprio aparece mais do que de costume em tela, ainda que sua voz conduzindo as conversas já tenha se transformado em uma de suas marcas autorais.
O início do filme é com o próprio diretor em frente a tela, sentado na cadeira do entrevistado reclamando sobre o material que tem em mãos. "Devia ter feito com crianças", ele lamenta. "Elas são mais verdadeiras, os jovens já chegam aqui armados". Ele completa, o que uma voz feminina retruca dizendo que aí entra a missão dele: desarmá-los.

A maioria das entrevistadas são meninas, apenas dois rapazes aparecem no corte final. E todos os jovens estão no terceiro ano colegial, prestando ENEM para decidir a carreira que irão seguir. Mas, não falam apenas sobre isso. Falam sobre amores, dificuldades de relacionamentos familiares, amigos, bullying, medos, traumas, talentos e sonhos. É interessante a forma como Coutinho vai conduzindo a conversa como um psicólogo paciente, contratando com a imagem do documentarista que reclama no início.
Cada um tem sua própria história e sua forma de lidar com a vida. E a câmera está sempre ali, aproximando a medida que a conversa se torna mais íntima, se afastando nos momentos de constrangimento. Alguns parecem bem à vontade em frente à câmera, outros são mais arredios. Os momentos de silêncio também viram experiência e um jovem diz: "esse silêncio ficou estranho, porque o ouvido humano não está preparado para o silêncio total".

Coutinho consegue revelações diversas como a menina que chora pela insinuação de abuso sexual sofrida, ou o rapaz que conta o drama que o fez largar a escola e retornar após muita terapia. Há críticas sociais também, como a garota que fala das aulas extras que existem na escola pública como ballet e artes marciais, mas questiona "Cadê a aula de inglês e informática para nos preparar para o mundo?"

"Deus é o homem que morreu" (contém spoilers)
Talvez o ponto alto de Últimas Conversas seja mesmo a subversão do tema que vem na sua parte final e que já tinha nos dado uma pista no início. Surge uma garotinha de cinco anos na tela e Coutinho conversa com ela fazendo perguntas e deixando que sua inocência infantil responda. Contrasta com tudo que vimos, até porque a garotinha é de classe alta, com dois pais médicos, uma babá e uma cozinheira. Mas, a simplicidade e espontaneidade com que responde às perguntas nos faz rir e pensar no que poderia ter sido esse filme feito apenas com crianças. E, no final, Coutinho repete incessantemente a resposta da garotinha para a pergunta do que é Deus: "Deus é o homem que morreu". Quanta ironia ver que o criador desta obra é também o homem que morreu.
Últimas Conversas (Últimas Conversas, 2015 / Brasil)
Direção: Eduardo Coutinho
Finalização: João Moreira Salles
Roteiro: Eduardo Coutinho
Duração: 80 min.