
Chama a atenção em primeira lugar o uso da câmera. Não apenas a fotografia de Emmanuel Lubezki, como as escolhas de direção que nos levam sempre para ângulos diversos, planos longos e alguns planos-sequência que vão dando ritmo ao filme e explorando ao máximo a linguagem cinematográfica. Alguns consideraram um filme pretensioso, não vejo assim. Mas, como um exercício estilístico que aqui está completamente em função da trama, pois nos ajuda a ter uma ideia da dimensão daquele cenário e dos desafios pelos quais passa o protagonista.

Esse é um dos grandes méritos de Leonardo DiCaprio no filme, ainda que já tenha nos apresentado interpretações melhores. Ele segura as mais de duas horas de filme passando angústia, dor, sofrimento, amor e perseverança com pouquíssimas palavras. Boa parte das emoções passa pelo olhar. O trabalho de corpo também é muito bem feito. Ele realmente nos convence das dores que sente. Mas, não podemos deixar de elogiar também Tom Hardy em sua composição de John Fitzgerald, principalmente no sotaque carregado e na postura arrogante.

É interessante que, mesmo em uma história mítica baseado na realidade, Alejandro González Iñárritu se mantem fiel a seus próprios questionamentos sobre a humanidade e as disputas constantes. Americanos, franceses, índios de duas tribos. Não importa. Todos estão em busca do seu próprio espaço e sua própria razão. Ainda que haja alguns traços de compaixão e auxílio, no geral, vemos uma grande selva de luta por sobrevivência que a jornada do personagem de Leonardo DiCaprio acaba sendo um símbolo.

Mas, como já foi dito, o que chama a atenção mesmo na obra é a linguagem cinematográfica. A cena inicial já traz um impacto positivo na imersão da cena e na maneira como os planos são conduzidos em uma montagem ágil e detalhada ao mesmo tempo. A cena do ataque do urso é outra extremamente forte, que busca criar a sensação realista dos ataques, fazendo ser capaz de sentir parte da dor do protagonista a cada golpe em sua pele ou sacudida em seu corpo.
O Regresso é então, um grande filme. Impacta positivamente principalmente ao ser visto na tela grande com todos os atributos que lhe são peculiares. Dificilmente levará o Oscar no final do mês, mas merece ficar registrado na história do cinema.
O Regresso (The Revenant, 2016 / EUA)
Direção: Alejandro González Iñárritu
Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu
Com: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter, Domhnall Gleeson, Paul Anderson, Christopher Rosamond
Duração: 156 min.