
Talvez esse seja um dos pontos mais interessantes do filme. O lírico. Há uma cadência própria na obra que não nos dá exatamente uma história épica, ainda que fale de gerações, nem foca completamente no drama, com um enredo pré-definido. O sistema se organiza ao ritmo do cordel, até os diálogos são rimados trazendo uma roupagem própria que é preenchida também pela música sempre presente em cena.

O circo, outra manifestação popular de grande impacto também tem função importante na obra. Também em sua cadência cíclica, vai e volta à cidade com novos espetáculos e equipes, sempre comandados pelo mesmo dono e com a mesma música para chamar o público. Há ali um contraponto interessante da guerra do cangaço com a polícia. Não por acaso o destino dos dois grupos se cruza em momentos-chaves, reforçando os pontos em comum e o espírito livre de ambos.

E por fim, temos a polícia, o governo, a repressão e todas as outras instâncias que o Antero Tenente passa representar. A saga que se desenrola a partir deste personagem é instigante e acaba dando ainda mais força ao filme em seus momentos finais. Há crítica e ironia bem dosadas em uma sutil tragédia familiar que fica ainda mais curiosa quando paramos para analisar.
Sem uma estrutura linear tradicional, a obra vai desenrolando em nossa frente de uma maneira agradável. É divertida e também envolvente. Emociona e incomoda. E principalmente, nos dá uma sensação de que Alceu Valença, além de ótimo músico, pode também se tornar um ótimo cineasta que, com criatividade, poesia e elementos de nossa cultura, fez um belo filme. Fiquemos de olho.
A Luneta do Tempo (A Luneta do Tempo, 2016 / Brasil)
Dureção: Alceu Valença
Roteiro: Alceu Valença
Com: Hermila Guedes, Irandhir Santos, Hélder Vasconcelos
Duração: 97 min.