
Essa semana começou o Festival Varilux de Cinema Francês em 59 cidades brasileiras. A abertura aqui em Salvador foi dupla, com os filmes Chocolate e Um Amor à Altura. Conferimos o filme sobre o primeiro palhaço negro da história, que traz um drama consistente e com diversos temas em um filme só.
O palhaço Chocolate, interpretado aqui por Omar Sy, marcou a história do circo junto a sua dupla, o palhaço Footit, fazendo muito sucesso no Nouveau Cirque em Paris no final do século XIX. A grande inovação da dupla foi juntar um palhaço Branco com um Augusto, algo que se tornou comum desde então e hoje não se imagina a palhaçaria sem a junção desses dois.

Não há ninguém totalmente bom, nem totalmente mau no filme. São seres humanos, todos extremamente complexos com seus motivos para agir como agem. Mesmo o casal do primeiro circo em que Chocolate atua traz algumas questões de sobrevivência.
Rafael começou sua carreira no circo imitando um canibal. Seu tom de pele e sua postura vista como exótica pelos brancos franceses faziam com que sua apresentação fosse também algo curioso, fora do comum. Mas, seu talento foi percebido por George Footit que o chamou para criar uma dupla de palhaços. A ideia deu tão certo que logo eles estavam em Paris fazendo sucesso.
De um jovem acomodado, que só queria sobreviver e não se importava com o que precisasse se submeter, Chocolate vai se transformando. Fica deslumbrado com a fama, começa a esbanjar, tem o vício do jogo e é mulherengo. Não é construído como santo, mas a partir de um acontecimento marcante, onde é humilhado na prisão, começa a repensar seu papel no mundo. Em todas as fases, no entanto, há sombra e luz nele.

Além da boa composição das personagens, o roteiro também é hábil na economia dramática. As fases são bem trabalhadas, nos apresentando às situações e as personagens de maneira natural e envolvente. Há cenas de grande impacto como a do "banho" na cadeia e outras extremamente leves como os palhaços no hospital infantil. Tudo bem dosado.
A direção e a montagem também são eficientes, principalmente na dinâmica das apresentações dando a dimensão exata da situação na época. Há apenas alguns fades mais demorados que soam estranhos. Mas, no geral, o filme funciona muito bem.
Mais do que uma cinebiografia, Chocolate é uma homenagem a um grande artista, expondo-o de maneira honesta em todas as suas nuanças para que possamos melhor compreendê-lo e admirá-lo em sua jornada pioneira na arte não apenas francesa, mas mundial.
Chocolate (Chocolat, 2016 / França)
Direção: Roschdy Zem
Roteiro: Cyril Gely
Com: Omar Sy, James Thierrée, Clotilde Hesme
Duração: 110 min.