
O nosso representante na corrida do Oscar 2017 é um conto de fadas. Tem princesa, tem príncipe, tem fada madrinha e tem uma bruxa estilo madrasta de Cinderela. Só faltou focar no que verdadeiramente importava. David Schurmann e os roteiristas quiseram florear tanto a história da pequena Kat que esqueceram de trabalhá-la. Mas, tem também seus pontos positivos.
A trama gira em torno de uma história real, vivida pela família do diretor e baseada no livro escrito pela mãe dele. É natural que os sentimentos se misturem e acabem turvando a percepção do que deve ser contado e como. Mesmo tento ao seu lado um roteirista experiente como Marcos Bernstein. A tentação de mitificar a realidade é inevitável e a vontade de fazer o público se emocionar e se importar tanto quanto ele, acaba criando momentos overs na programação de efeitos.

Quer dizer, está, mas em segundo plano. Ao dividir a narrativa em três tramas distinas que vão se ligando aos poucos, os roteiristas deram agilidade ao filme, com cortes rápidos. Porém, também espalharam o foco de uma maneira muito confusa. Não há uma progressão que aguce a curiosidade para ver onde e como as três tramas irão se unir. Pelo contrário, são cenas desconectadas, simplesmente picotadas para ir mesclando as três histórias. Quando finalmente entendemos onde o filme quer chegar, começa uma confluência melodramática exagerada para querer nos emocionar a todo custo.
Trabalhar a emoção não é algo ruim. O próprio Marcos Bernstein ajudou a construir um belíssimo melodrama que marcou a história do nosso cinema (Central do Brasil). A questão é como utilizar os programas de efeitos para despertar a emoção do espectador. Como dosar isso criando empatia do público com as personagens, envolvendo, criando o clima para a catarse. Não há isso em Pequeno Segredo. O grande clímax da pequena Kat é uma apresentação de ballet quando tem tantas outras questões em jogo.

Viram vários filmes e o espectador fica sem saber em qual apostar sua verdadeira atenção. A própria construção das personagens é estereotipada demais, sendo difícil criar empatia. Uma estrutura parecida com uma telenovela, sem querer com isso desmerecer o formato ou considerá-lo inferior. Apenas fica estranho e confuso. Uma televonela tem seis meses para trabalhar suas tramas e suas personagens, ao contrário do filme que precisa funcionar em 107 minutos. Não é a mesma coisa. São linguagens diferentes.
Ainda assim, existem qualidades na obra. A fotografia é impecável. A montagem também é bem feita, ainda que com alguns tombos de roteiro. As atuações são boas, principalmente de Júlia Lemmertz e Fionnula Flanagan, ainda que elas protagonizem uma das piores cenas do filme. Apenas a pequena Mariana Goulart poderia ser melhor, reforçando a sensação de que Kat no final das contas é o ponto mais frágil da obra, quando deveria ser o seu epicentro.
Com uma trilha over que briga por nossa atenção, quando deveria nos conduzir sutilmente, Pequeno Segredo é um filme que poderia ter sido. Tem uma história forte que merece ser conhecida, tem elementos técnicos a seu favor e tem um belo elenco disposto a mergulhar nessa aventura. Uma pena que pareça estar à deriva, em busca de um rumo certo.
Pequeno Segredo (Pequeno Segredo, 2016 / Brasil)
Direção: David Schurmann
Roteiro: Victor Atherino, Marcos Bernstein, David Schurmann
Com: Júlia Lemmertz, Marcello Antony, Maria Flor, Fionnula Flanagan, Mariana Goulart, Erroll Shand
Duração: 107 min.