
Um palhaço que fala palavrão, leva cantoras sensuais para dançar no programa e não tem medo de ligações das crianças que falam o que vem na cabeça. Sim, a televisão brasileira já teve um programa assim. Bozo marcou a infância de muitas crianças através de seus diversos intérpretes. O montador Daniel Rezende estreia na direção inspirado, principalmente, na vida de um deles, Arlindo Barreto, nos dando uma bela obra cinematográfica.
Os nomes foram alterados, apenas a cantora Gretchen permanece citada pelo nome verdadeiro, porém, não é difícil fazer os paralelos. Arlindo aqui vira Augusto Mendes, o intérprete do palhaço Bingo. Sua mãe continua sendo uma grande atriz do passado, seu currículo continua tendo participações em filmes pornôs e sua vida pessoal é regada por uísque e cocaína.

Talentoso e bem humorado, Augusto Mendes deseja a fama, mais do que dinheiro ou trabalho. A ironia dramática é que Bingo é um sucesso, capaz de ganhar prêmios, porém, um contrato o impede de revelar sua identidade. "Que adianta ser o Bingo e não pode contar a ninguém?" Viver na sombra de um personagem não é fácil, ele não é o primeiro a vivenciar algo assim e provavelmente não será o último. O filme trabalha isso, principalmente na relação com o filho, que sofre por não poder contar aos amigos e depois sente-se preterido diante do trabalho do pai. Mas trata do tema também com a relação do ator com sua mãe, uma atriz famosa que não consegue mais trabalho.

Bingo é bem dirigido, com um trabalho de cena cuidadoso, nos dando sequências simbólicas, como uma caminhada nos corredores onde luzes se apagam e a câmera está de lado, por exemplo. Trabalha bem também o jogo entre realidade e imaginação, buscando uma aproximação psicológica do protagonista, ainda que um determinado recurso repetido acaba enfraquecendo o impacto em sua segunda utilização, que seria mais importante que a primeira. Porém, o grande mérito da obra, talvez, seja a atuação.
Vladimir Brichta se entrega ao papel como há muito não vemos o ator ser capaz de fazer. Trabalhando muito com o humor, ele perdeu parte da carga dramática que apresentava em seu início de carreira no teatro. Com Bingo, o ator consegue dosar bem o tragicômico da persona do palhaço triste. Consegue ser sedutor, cafajeste, amoroso, engraçado, triste, depressivo, tudo com uma habilidade impressionante. Há cenas extremamente fortes como a que está em frente a um televisor após beber muito uísque e cheirar muito pó. O restante do elenco não fica atrás. Leandra Leal está muito bem como a diretora do programa, assim como Augusto Madeira como o câmera amigo de Bingo. Destaque ainda para a participação de Emanuelle Araújo como Gretchen.
Bingo - O Rei das Manhãs é maduro em suas escolhas, construindo um filme que ainda não traduz toda a complexidade da televisão brasileira nos anos 80, mas traz uma boa amostra. Sendo um belo estudo de personagem.
Bingo - O Rei das Manhãs (Bingo - O Rei das Manhãs, 2017 / Brasil)
Direção: Daniel Rezende
Roteiro: Luiz Bolognesi
Com: Vladimir Brichta, Leandra Leal, Augusto Madeira, Ana Lúcia Torre, Tainá Müller, Emanuelle Araújo
Duração: 113 min.