
Baseado no livro autobiográfico da jornalista Jeannette Walls, O Castelo de Vidro é um filme sobre família, valores e superação. Poderia cair no clichê, mas consegue problematizar bem a questão de uma família com pais desajustados e irresponsáveis, ao mesmo tempo que são amorosos.
Pense na cena: uma garotinha diz à mãe que está com fome, mas esta manda a menina se virar porque está pintando. A menina sobe em um banquinho e vai cozinhar salsichas, seu vestidinho pega fogo e ela tem queimaduras graves que a levam ao hospital. Em outro momento, as quatro crianças dividem uma barra de manteiga com açúcar, única coisa que tem em casa para comer. O pai sai dizendo que vai buscar comida e volta bêbado, sem nada. Ainda que não amenize os problemas e absurdos do casal Rex e Rose, o filme consegue humanizá-los, demonstrando diversos outros momentos de cuidado e amor incondicional com seus filhos.

O roteiro trabalha em dois tempos paralelos, a infância e adolescência dessas crianças, ao mesmo tempo em que acompanhamos o presente de Jeannette com seu noivo David. A perspectiva do futuro bem-sucedido da garota, acaba por amenizar os absurdos que acompanhamos em sua infância, como a citada cena do incêndio. Ao mesmo tempo, constrói-se um paralelo para buscar compreender os valores que importam. Apesar de todos os problemas, ela teve uma relação amorosa com os pais. Virar as costas para o passado não parece o melhor caminho.
A construção dos contrastes entre a vida asséptica de Jeannette com David e com os ambientes insalubres da infância estão em todos os detalhes. O apartamento clean, com paredes brancas e poucos móveis sóbrios, com todos os ambientes muito bem iluminados, contrastando com as casas de madeira crua, com ambientes empoeirados em penumbras. A fartura de pratos bem produzidos, restaurantes caros, em contraste com pouca comida, ou nenhuma.

O Castelo de Vidro do título é o sonho do patriarca Rex, que, nos poucos momentos sóbrios da trama, está em uma prancheta planejando a casa ideal da família que teria muitos vidros para a entrada do sol. É curioso como esses planos vão permeando a narrativa, demonstrando a descrença de Jeannette no mesmo à medida que vai crescendo. É como uma metáfora da quebra dos sonhos de infância com o amadurecimento e ser de vidro só torna tudo isso ainda mais poético e emblemático.
Um filme difícil, porém corajoso. Tem problemas de ritmo e pesa a mão em alguns estereótipos da sociedade encontrada por Jeannette em sua nova vida. Ainda assim, traz sua verdade, discutindo a figura paterna e materna sem rótulos, demonstrando que é possível amá-los e ver seus defeitos ao mesmo tempo. E que, mesmo com eles, é possível escrever seu próprio caminho, sem responsabilizá-los por seus fracassos. Essa parece ser a lição que Jeannette Walls quis nos passar ao contar sua história.
O Castelo de Vidro (The Glass Castle, 2017 / EUA)
Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham
Com: Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Ella Anderson, Josh Caras, Max Greenfield, Brigette Lundy-Paine, Sarah Snook
Duração: 127 min.
Hugo · 397 semanas atrás
Parece interessante.
Bjos
Amanda_Aouad 118p · 397 semanas atrás
bjs