
É difícil começar a falar sobre O Filme da Minha Vida. Porque o título já traz uma certa pompa que nos leva a imaginar, será esse o filme da vida de Selton Mello? Baseado no livro “Um Pai de Cinema” de Antonio Skármeta (O Carteiro e o Poeta), a obra traz muito lirismo. E também nostalgia e melancolia, como os dois trabalhos anteriores do diretor. Sendo uma bela experiência fílmica.
Selton Mello utiliza a poesia para construir a métrica de seu roteiro, que não tem exatamente uma trama delineada. Há um estopim: a partida do pai para França no dia em que o filho retorna ao lar. Mas esse não é o conflito principal da obra, que traz um pedaço da vida de Tony, um jovem que retorna a sua cidade natal após estudar na capital para trabalhar como professor da escola local. Ele sente saudades do pai, sim. E tenta entender o mistério em torno de sua partida. Mas ele também tenta se adaptar a nova função. Além iniciar um relacionamento com a jovem Luna.


Selton Mello não busca problematizar questões de gênero e relacionamento, ele quer fazer poesia. E todo poeta é um pouco ególatra. O que não deixa de ser belo. E isso, O Filme da Minha Vida é. Extremamente belo em cada plano, em cada detalhe da mise-en-scène, em cada efeito criado em sua fotografia. Até mesmo a utilização do cigarro que inunda a tela, devido a quantidade de fumantes, é bela. Está sempre ajudando a criar um clima onírico, com a luz entrecortando a penumbra deixada pelo excesso de fumaça. Tudo parece pensado milimetricamente para ser um deleite estético. Nisso, temos que destacar o mérito também do diretor de fotografia Walter Carvalho.

Há ainda uma metalinguagem ao iniciar a narração de Tony com a explicação de seu pai para o cinema que dizia gostar de ver o início e o fim dos filmes. O início para conhecer a história e o final, porque sempre é bonito. Em contrapartida irônica, Paco, personagem interpretado pelo próprio Selton, diz que cinema é perda de tempo: “é um troço escuro que você fica lá dentro vendo a vida dos outros em vez de cuidar da sua e perde duas horas da vida”.
Apesar de não contar a história de sua vida, Selton Mello faz uma espécie de sua versão de Amarcord com pitadas de Cinema Paradiso, pelo menos o clima desses clássicos está presente na obra. Mas parece que falta algo para de fato alcançar as emoções que eles atingem. Um filme extremamente belo, com técnica impecável e boas atuações, porém parece faltar algo para, de fato, tocar as nossas almas. Ainda que, indiscutivelmente, não tenhamos perdido duas horas de nossas vidas como imaginou Paco.
O Filme da Minha Vida (O filme da minha vida, 2017 / Brasil)
Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello, Marcelo Vindicato
Com: Johnny Massaro, Bruna Linzmeyer, Bia Arantes, Vincent Cassel, Rolando Boldrin, Selton Mello
Duração: 113 min.