
Filmes são símbolos, metáforas de uma vida que se apresentam em cena de diversas maneiras. Não é o real, mas a simulação dele. Em Mãe!, Darren Aronofsky radicaliza isso ao construir um filme totalmente simbólico. Analisá-lo ao pé da letra é impossível, porém a própria obra nos dá os indícios de como lê-la, não é preciso ir muito longe, a começar pelo título.
Na superfície da obra, uma alegoria se apresenta. Uma mulher em chamas, uma casa reconstruída a partir de um cristal, uma mulher e um homem que vivem nessa casa que, aos poucos, será invadida por outros seres em situações meio absurdas. Intrusos para ela, convidados por ele. Irritantes e ameaçadores para ela, fãs admiradores dele.

Isso nos dá uma certa claustrofobia constante. Há um incômodo crescente, uma sensação de horror a cada nova pessoa que adentra a casa sem ser convidada, pelo menos por ela. Primeiro, o homem interpretado por Ed Harris, depois a mulher vivida por Michelle Pfeiffer. Uma situação estranha, mas ainda dentro do limite aceitável, depois é que vai piorando e, se você não subverte a lógica para observar o simbólico, o filme fica mesmo insuportável. Muita gente riu de nervoso ou simplesmente saiu da sessão nesse ponto.

Mãe! é um filme de experiência. A nossa experiência com os temas ali abordados, nossa interpretação e capacidade de questionar a própria existência humana. É ainda um ato de criação e questionamentos sobre este ato. Seja de que natureza for essa obra. Em uma visão micro, do próprio filme e daquela casa. Seja em uma visão macro. E o curioso é que ainda que seja a musa inspiradora do poeta, a personagem de Jennifer Lawrence é também co-criadora, já que é ela quem reforma a casa incendiada e sente a pulsação dela a cada instante como um alerta do que está por vir. (* CASO TENHA VISTO O FILME, ACRESCENTE AQUI A PARTE COM SPOILER).
Independente da interpretação, Mãe! não é um filme fácil. Mas a vida também não é. Isso é que a torna tão fascinante, tal qual o filme que continua reverberando em nós, muito tempo após a sessão.
Mãe! (Mother!, 2017 / EUA)
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Darren Aronofsky
Com: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer
Duração: 121 min
*SPOILERS A PARTIR DAQUI*
A diferença é que ele é reconhecido e admirado como o criador, enquanto que ela é apedrejada pela multidão enfurecida. Uma representação de como a mulher foi sendo colocada em segundo plano na história das religiões e na relação com o divino. Gaia, a mãe natureza, a deusa mãe, muitas podem ser as simbologias atribuídas a ela. O fato é que vem dela a capacidade de criar em suas diversas formas, já que a primeira mulher queimada e a terceira mulher que acorda no final da obra são diferentes daquela que acompanhamos durante toda a projeção, mas o cristal é o mesmo, assim como a casa que abriga a criação.
As simbologias retiradas da Bíblia vão se apresentando de maneira menos ou mais óbvias. Adão e a Eva (Harris e Pfeiffer) só ficam claros quando Caim mata Abel, ainda que antes ela tenha quebrado o cristal em uma simbologia possível do fruto proibido que os expulsou do paraíso como castigo por sua curiosidade. O dilúvio, a partir da pia quebrada que os deixa em paz por algum tempo, é mais claro, uma espécie de limpeza da terra que divide épocas. A forma como a multidão invade a casa após a obra em suas diversas maneiras de adorar a Deus ou mesmo o bebê Jesus devorado pela multidão, nos faz refletir sobre a maneira irracional com a qual lidamos com o divino. E, mais uma vez, a mulher é vista como a culpada, aquela que merece ser rechaçada. Mas o curioso é que vem do homem o objeto que gera o apocalipse que reiniciará o ciclo, já que é com o isqueiro trazido por Ed Harris que ela ateia fogo na casa.
Ainda que algumas interpretações nos possam levar para a comparação do ato criativo como uma auto-reflexão do próprio diretor e roteirista, as diversas referências bíblicas nos fazem crer que a trama não ouse tanta pretensão. Ainda que este seja o "deus" da criação fílmica, a visão egocêntrica do personagem de Javier Bardem nos deixa indícios de que é uma reflexão contrária a isso que o filme busca. Ao se construir como "mãe", não "pai", queima literalmente esse ego e esse desejo de ser adorado, nos demonstrando onde, para ele, está o verdadeiro ato da criação.