
Ser demitido de um trabalho é ruim, machuca, tira o rumo, baixa a auto-estima. Quando essa demissão vem depois dos sessenta anos de idade em um trabalho a que dedicamos a vida, a situação fica pior ainda. É o que acontece a Rosália, personagem de Magali Biff, quando a fábrica onde trabalha passa por uma reformulação. Sem forçar para nada, ela acaba embarcando com seu irmão para a Argentina para acompanhá-lo em um serviço.
Em seu primeiro longa-metragem, Caroline Leone mergulha no universo dessa mulher e deixa sua atriz brilhar em cena. Magali Biff já fez alguns trabalhos no cinema, mas é uma atriz mais conhecida do teatro. Na pele de Rosália, ela consegue encontrar um tom intimista que nos toca profundamente. Sua dor não está em palavras, em gritos ou mesmo em choro, ainda que este exista em alguns momentos. É o olhar distante, a expressão apática, a sensação de vazio que ela nos passa.

Nesse sentido, Cacá Amaral, que faz o irmão Zé, é um contraponto importante. Ele está ali para dar suporte, mas também para tirá-la da zona de conforto, que seria só se lamentar. Com sua simplicidade e proteção, dá espaço para sua irmã respirar novos ares e procurar sua própria vontade de continuar. A intimidade e cumplicidade dos dois vai sendo construída em tela em momentos singelos como uma cantoria no quarto de um hotel, um jantar com sorteio ou a já citada cena das cataratas.

Pela Janela é um filme que traz um tom lírico, ainda que o drama conduza a narrativa. É sensível, belo e emocionante em diversos aspectos. Evoca questões políticas, trabalhistas e humanas, nos dando uma construção positiva de que somos capazes de nos adaptar às adversidades e ir além.
Filme visto no XIII Panorama Internacional Coisa de Cinema.
Pela Janela (Pela Janela, 2017 / Brasil)
Direção: Caroline Leone
Roteiro: Caroline Leone
Com: Magali Biff, Cacá Amaral, Mayara Constantino
Duração: 87 min.