
Brasil, 1987. O cidadão Júlio César ia para o seu trabalho quando viu uma confusão em um supermercado por causa de um assalto com reféns. Ele, como muitos, aproximou-se para observar, mas como sofria de epilepsia, teve uma crise e caiu no chão. Alguém gritou que ele estava envolvido, a polícia o pegou, bateu nele, levou para dentro da viatura, mas ao chegar ao hospital, ele estava morto com dois tiros. Agora, sua história é resgatada em um documentário que demonstra que pouca coisa mudou desde então.

Camila de Moraes, em sua investigação, parte do específico, mas constrói uma reflexão sobre a situação do homem negro no Brasil e da constante violência policial, sem julgamento, sem leis, sem consequências. Ainda que o caso de Júlio César fosse muito próximo ao período ditatorial do país, a maneira como os responsáveis pela execução foram protegidos por seus pares, revolta por perceber que foi algo que não mudou muito desde então.
Ainda que com uma linguagem simples, jornalistica, intercalando depoimentos para a câmera, o filme consegue construir sua tese e trabalhar a mensagem de maneira clara e militante. Nos convoca a todo tempo para pensar e refletir junto sobre a situações, fazendo comparações com o momento atual. Não é um filme que fica com seu discurso no passado, apenas relembrando e lamentando um fato. É político e atual, por isso, sua força e importância.

O momento mais emocionante e poético, provavelmente tem relação com o depoimento da mãe de Júlio César e a busca por justiça pelo que aconteceu com seu filho. Porém, o filme vai intercalando estes momentos de emoção, principal efeito construído, com outros de reflexão e de informação pura, dando dinâmica ao documentário e convocando a platéia a participar junto da proposta.
O caso do homem errado, termo que foi criado pela imprensa local na época, questiona o tempo todo se existe um homem certo. E essa é a questão que fica em nossa mente após a exibição. Principalmente com os dados sobre genocídios de pessoas negras no país que são expostos nos créditos. Júlio César acaba sendo o símbolo de uma luta constante em um país desigual que insiste em dizer que não existe racismo em sua terra. Há um grito em tela que ecoa e que reflete também a própria desigualdade que o cinema vive. Uma diretora negra, a segunda que consegue colocar um filme em circuito comercial e, mesmo assim, um circuito restrito. Premiado como melhor longa-metragem no 9º Festival Internacional de Cine Latino, Uruguayo y Brasileiro em Punta del Este, até o momento só consegui estrear no Rio Grande do Sul, onde o caso aconteceu. Só nos resta divulgar e torcer para que ele chegue em outras praças.
* Filme Visto na Mostra Itinerante de Cinema Negro Mahomed Bamba.
O caso do homem errado (O caso do homem errado, 2018 / Brasil)
Direção: Camila de Moraes
Roteiro: Camila de Moraes, Mariani Ferreira
Duração: 76 min.