
Pode-se acusar o cinema de Wes Anderson de tudo, menos de falta de criatividade. Há uma capacidade no cineasta de trazer temas simples e já batidos sob uma ótica completamente original. Pode causar estranhamento em muitos momentos, mas é encantador em seus aspectos estéticos e capaz de nos envolver de maneira única.
Ilha dos Cachorros é sobre a velha relação do homem com o seu “melhor amigo”, que, de quebra, traz a velha rixa cão e gato, ainda que sutil, como se um ser humano só pudesse amar um ou outro animal. Toca também em relações familiares, regimes totalitários, relações internacionais, pesquisas científicas e combates a epidemias.

A doença parece ser o que menos importa nessa trama. Sempre com um símbolo de gato em seus objetos pessoais, o ditador Kobayashi simplesmente odeia os cães e manipula informações para ter a opinião pública a seu favor. Ainda que boa parte dos japoneses amem seus cães, não deixa de ser intrigante que, fora Atari, a voz que lidera protestos é de uma garotinha estadunidense que faz ali intercâmbio. É louvável colocar uma personagem feminina forte em um mundo tão machista, onde até as cadelinhas são apenas para exposição, mas seu papel acaba não sendo aprofundado como deveria e não deixa de ser incômodo que ela seja o ponto de vista estrangeiro.

Ainda assim, o roteiro é feliz ao construir sua dinâmica irônica com diálogos bem dosados que trazem humor e agilidade mesmo quando parece completamente blasé. Há um ritmo próprio, inteligente, na obra, que encanta e nos envolve.
A direção de arte e toda a composição estética de cenários e modelagem das personagens é de um primor visual que encantam por si só. O cuidado na técnica de stop motion e a riqueza de detalhes, seja em movimentos ou objetos, impressiona. O filme é ágil e bem desenvolvido. Wes Anderson consegue construir uma beleza repleta de luz e cor de um espaço que seria o lixo, só isso já encanta. Mas, claro, que sem uma boa história por trás, seria apenas perfume.
Ilha dos Cachorros é um filme maduro de Wes Anderson que coroa sua já tão rica e diversa filmografia. Um filme repleto de boas soluções que merece todo o destaque que vem tendo.
Ilha dos Cachorros (Isle of Dogs, 2018 / EUA)
Direção: Wes Anderson
Roteiro: Wes Anderson
Duração: 101 min.