
A jornada do herói é uma fórmula que parece clichê e fácil, principalmente após Hollywood colocá-la em manual com passos a serem seguidos, mas a construção concebida por Joseph Campbell é profunda exatamente por trazer um arquétipo de um inconsciente coletivo que parece ultrapassar barreiras territoriais, costumes e raças. Claro, Chuva é cantoria na aldeia dos mortos é um filme feito por dois brancos, uma brasileira e um português, que se utiliza de uma aldeia indígena e suas personagens para construir sua própria história, mas há algo na obra que parece construir uma empatia a mais, dando voz àquele povo.
Realizado na aldeia Krahô de Pedra Branca, conta a história de Ijhãc, um índio que está recebendo o chamado para ser pajé de sua tribo, mas não aceita esse encargo. Sua vontade é fugir dali para que o esqueçam, junto com sua esposa Kôtô e o filho do casal. Há uma mistura de costumes, mística, psicológico e relações que parecem muito próprias e ao mesmo tempo universais. O próprio medo da responsabilidade que o protagonista sente acaba por se constituir de maneira muito particular e ao mesmo tempo compreensível a todos.

O ritmo da câmera também traz ao filme um ar documental, ainda que os planos bem pensados deixem clara a intenção de conduzir aquela história. Há uma boa exploração das paisagens naturais e da aldeia, com alguns momentos de perfeita comunhão, como a cena que abre o filme com o protagonista na cachoeira conversando com o espírito de seu pai. Ou quando um grupo de moças comentam sobre namoro enquanto tomam banho de rio. A cultura Krahô também é desenvolvida e respeitada na condução da trama.

Ainda assim, Chuva é cantoria na aldeia dos mortos é um filme que busca a empatia. Constrói seu protagonista e o olhar sob o outro de maneira sensível e respeitosa. Ainda é a voz e o olhar estrangeiros sobre aquele povo, mas não deixa de ser uma construção legítima, uma busca pelo entendimento e diálogo.
De maneira cíclica e em busca de apaziguamento, o filme nos leva àquela cachoeira e nos faz sentir as águas limpando a alma deles e nossa, de alguma maneira. Entre símbolos, metáforas e interpretações, estamos próximos daquele povo em tela.
Filme visto no XIV Panorama Internacional Coisa de Cinema.
Chuva é cantoria na aldeia dos mortos (Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, 2018 / Brasil)
Direção: Renée Nader Messora e João Salaviza
Roteiro: Renée Nader Messora e João Salaviza
Com: Ijhãc Krahô e Kôtô Krahô
Duração: 113 min.