
Em “Como Nossos Pais”, Belchior diz que a dor dele era “perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Isso pode resumir um pouco o embate entre pai e filho no novo filme de Jorge Furtado.
Baseado na peça de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, Rasga Coração traz uma construção paralela entre os anos 60 e os atuais a partir do olhar de Manguari, personagem de Marco Ricca que no passado foi um ativista revolucionário e hoje é considerado um conversador por seu filho, Luca, com quem tem brigas tão intensas quanto seu pai tinha com ele no passado.

Ao mesmo tempo, parece faltar a Furtado e aos demais roteiristas um pouco de empatia e conhecimento dessa nova geração que parece o tempo todo ser vista na obra pela óptica do pai, Manguari. Tanto Luca quando sua namorada Mil parecem estereótipos rasos de jovens, inclusive em suas “manias” de usar roupas do sexo oposto.

A discrepância entre a construção dos jovens dos anos 60 com os atuais é tanta que, mesmo uma personagem aparentemente rasa como Bundinha (George Sauma), consegue nuanças importantes que nos dão a dimensão das camadas daquela época. Ao contrário, por exemplo, da garota negra que briga pela cota nas universidades.
Ainda assim, o filme consegue construir bons paralelos entre as duas épocas, utilizando uma montagem simbólica e uma estrutura cíclica que nos dá essa sensação de erros e acertos eternos. Mais uma vez voltando a Belchior e sua música, Manguari está hoje “em casa contando o vil metal”, não por acaso o filme abre e fecha com ele e sua esposa discutindo a lista de compras. Mas há também uma sensação de busca pelos ideais perdidos. O que torna o filme, no mínimo, um convite à reflexão.
Rasga Coração (Rasga Coração, 2018 / Brasil)
Direção: Jorge Furtado
Roteiro: Jorge Furtado, Ana Luiza Azevedo, Vicente Moreno
Com: Marco Ricca, Chay Suede, Drica Moraes, Luisa Arraes, George Sauma, João Pedro Zappa, Nélson Diniz, Cinândrea Guterres
Duração: 115 min.