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Ficção Americana
Ficção Americana
Cinco pessoas em uma sala precisam decidir sobre uma obra com questões raciais. Três dessas pessoas são brancas e duas negras. As três primeiras dizem sim, as outras duas não. O “time” vencedor conclui que é o justo, afinal “é muito importante dar voz a pessoas negras”. Isso resume bem o que o filme Ficção Americana de Cord Jefferson quer demonstrar. As pessoas estão muito mais preocupadas em parecer antirracistas do que ser o de fato.
Baseado no livro de Percival Everett, Ficção Americana traz a história de Thelonious Ellison, um escritor e professor de literatura, que está com dificuldades de vender seu novo livro para uma editora, pois o mercado espera algo mais “negro” dele. Resolve, então, escrever sob um pseudônimo, um livro repleto de clichês do que a sociedade espera que seja a vida de uma pessoa negra. A obra, não apenas consegue uma boa negociação com uma grande editora, como se torna best seller, deixando-o ainda mais irritado.
O roteiro do filme é extremamente hábil em nos envolver na narrativa. A primeira cena, com a discussão entre professor e aluna, já faz uma apresentação perfeita do que se trata a obra e de seu protagonista. Após a cena na diretoria, já estamos completamente envolvidos querendo entender aonde tudo aquilo vai nos levar. O problema é que parece que falta fôlego para aprofundar melhor algumas questões, ainda que trabalhe com a ironia e camadas de maneira bastante consistente.
Apesar da boa sacada do fio narrativo principal, a família de Monk, como também é conhecido Thelonious, acaba sendo pouco desenvolvida, toca em outros temas como machismo, traição, homofobia de maneira tão clichê quanto o protagonista reclama em relação ao racismo. Ainda que tenha boas insinuações, todo o núcleo fica frágil, mesmo a relação com a vizinha. Parecem alegorias para preencher o tempo de projeção como se o tema principal não se sustentasse em si.
De qualquer maneira, o filme tem um bom ritmo. A maneira como vai escalando o absurdo em relação ao mercado editorial, ou mesmo a indústria de entretenimento com os programas de televisão e a produção cinematográfica trazem mais camadas para a reflexão proposta, construindo quase um experimento social bem próximo da realidade. O tom farsesco com que Cord Jefferson retrata esse mundo é bem dosado, porém, contrasta com o realismo e melodrama da família de Monk, principalmente pela situação da mãe, o desfecho de sua irmã e a relação com o irmão.
Destaque ainda para a interpretação de Jeffrey Wright como o protagonista. Ele consegue mesclar bem uma certa apatia e descrença diante dos fatos que vão lhe sucedendo. A construção de uma pessoa fria, prática e que não externa muito suas emoções também é uma equação curiosa para um escritor. Sua interpretação se destaca em pequenos gestos, olhares, encaixando bem no tom da obra.
De qualquer maneira, Ficção Americana provoca sua plateia, tocando em temas polêmicos e nos convocando a refletir sobre nossa sociedade e a maneira com que lidamos com alguns fatos, em especial o racismo. A reflexão é tão pertinente que podemos observar que entre os dez indicados ao Oscar, este foi o único que não estreou nos cinemas brasileiros, indo direto para o streaming. A falta de espaço de uma obra assim, só reforça a importância dela, tal qual a cena citada no início do texto.
Ficção Americana (American Fiction, 2024 / Estados Unidos)
Direção: Cord Jefferson
Roteiro: Cord Jefferson
Com: Jeffrey Wright, Tracee Ellis Ross, John Ortiz, Erika Alexander, Leslie Uggams
Duração: 117 min.

Amanda Aouad
Crítica afiliada à Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), é doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Poscom / UFBA) e especialista em Cinema pela UCSal. Roteirista profissional desde 2005, é co-criadora do projeto A Guardiã, além da equipe do Núcleo Anima Bahia sendo roteirista de séries como "Turma da Harmonia", "Bill, o Touro" e "Tadinha". É ainda professora dos cursos de Jornalismo e Publicidade e Propaganda da Unifacs e da Uniceusa. Atualmente, faz parte da diretoria da Abraccine como secretária geral.
Ficção Americana
2024-03-05T08:30:00-03:00
Amanda Aouad
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